Há abandonos
que não chegam em forma de partida.
Não fazem barulho.
Não batem portas.
Não anunciam o fim.
Apenas se instalam — silenciosos —
no espaço entre duas pessoas
que continuam ali,
mas já não se alcançam.
Porque nem toda ausência
vem da distância.
Às vezes,
ela se senta ao seu lado,
divide a rotina,
responde quando chamada,
cumpre presença —
mas já não habita
verdadeiramente
lugar algum.
O corpo permanece.
A essência se retira.
E talvez essa seja
uma das formas mais confusas de solidão:
sentir falta de alguém
que ainda está.
Quem parte
leva consigo a dor do adeus.
Mas quem fica sem estar
deixa um vazio
difícil de nomear.
Porque não há como elaborar o luto
por aquilo que ainda não terminou,
mesmo já tendo acabado
em silêncio.
A ausência da presença
mora nos detalhes das reticências…
No olhar
que já não repousa —
apenas atravessa.
Na conversa
que perdeu profundidade.
No toque automático.
Na convivência
que se tornou protocolo.
É quando o afeto
deixa de ser encontro
e passa
a ser apenas hiato.
Algumas relações
não acabam de uma vez.
Desgastam-se aos poucos —
como tecido antigo,
puído pelo tempo,
até romper
sem alarde.
E talvez o que mais fira
não seja a ausência em si,
mas o intervalo doloroso
entre perceber
que algo mudou
e aceitar
que algumas coisas
nunca voltam
a ser como antes.
A ausência da presença ensina,
com uma crueldade silenciosa,
que proximidade
nem sempre significa conexão.
Há quem esteja perto
e ainda assim
infinitamente distante.
Há quem permaneça
sem realmente ficar.
E há dores
que não nascem da despedida —
mas do instante
em que se percebe
que alguém deixou de estar presente
muito antes de partir.
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