O mês de abril no Rio de Janeiro carrega uma mística pesada. Enquanto o país recorda o 21 de abril, o Rio se prepara para a alvorada do dia 23. De um lado, o vulto de Tiradentes; do outro, a imagem de São Jorge. Dois homens, dois sacrifícios e uma pergunta que não quer calar: o que o Estado e a Fé esperam de nós, "pequenos" brasileiros, quando o preço exigido é a própria vida?
Tiradentes, o "Joaquim" que a história oficial transformou em mártir com barbas messiânicas, foi o bode expiatório de uma elite que recuou. Ele não foi sacrificado por Deus, mas pela Coroa. Foi o Isaque que não teve um carneiro para substituí-lo no altar da forca. Já Jorge, o santo da capa encarnada, é a imagem da resistência contra o dragão — seja ele o mal espiritual ou a opressão do dia a dia.
Ao olhar para esses dois ícones, volto àquela angústia sobre Abraão. Se Abraão provou sua fé quase tirando a vida do filho, o Estado brasileiro provou sua força tirando a vida de Tiradentes. Mas onde fica o amor nessa equação de sangue? No Rio, o povo prefere Jorge. Talvez porque Jorge não sacrifica o que ama; ele luta para proteger. O devoto que sobe o morro na alvorada do dia 23 não busca um Deus vingativo que pede o sangue de um filho, mas um padroeiro que "empresta" suas armas para que o pai de família sobreviva a mais um dia de luta.
A história do Brasil é marcada por esses sacrifícios impostos. José Murilo de Carvalho, um dos nossos maiores historiadores, aponta como a imagem de Tiradentes foi construída para se assemelhar a Cristo, justamente para tocar no sentimento de culpa e redenção do povo. Segundo Carvalho:
A estratégia foi transformar o herói republicano em um novo Cristo, um mártir que se sacrificou pela pátria, facilitando a aceitação do novo regime por uma população profundamente religiosa (CARVALHO, 1990, p. 67).
Mas eu pergunto: até quando precisaremos de mártires? Se Deus é onisciente, Ele sabe que o amor de um pai que se recusa a sacrificar o filho é a forma mais pura de fé. Da mesma forma, uma nação que se diz justa não deveria celebrar a morte, mas a vida.
Neste abril, entre o feriado do enforcado e a festa do guerreiro, escolho a proteção. Que São Jorge nos guarde o braço para que nunca precisemos erguer o cutelo de Abraão. Que a memória de Tiradentes nos lembre que o sacrifício humano, seja ele no altar ou na praça pública, é sempre um sinal de que algo na nossa humanidade — ou na nossa justiça — falhou.
No fim das contas, ser "pequeno" diante dessas histórias de sangue é, talvez, a nossa maior dignidade. Pois o amor, em sua forma verdadeira, não pede sacrifícios; ele oferece abrigo.
Juliano Toledo, Advogado, Pedagogo, Pós-graduado em Educação Ambiental e Direito Público.
Referências Bibliográficas:
CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição Revista e Corrigida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009. (Gênesis, Capítulo 22).
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