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10/05/2026 13:16 | Colunistas
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Crônica — Mães: o amor que sustenta o mundo antes que o mundo acorde

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Antes que o dia abra seus olhos sobre a cidade, há uma mãe desperta. Talvez ela ainda não tenha tomado café. Talvez tenha dormido pouco. Talvez tenha escondido, no silêncio do travesseiro, uma lágrima que ninguém viu. Mas, quando a casa começa a respirar, ela já está de pé: arruma a mochila, pensa no almoço, calcula o dinheiro, mede o gás, confere o remédio, procura uma palavra de ânimo para o filho e, muitas vezes, guarda para si a própria angústia.

Celebrar o Dia das Mães é reconhecer esse amor que não se limita ao cartão, à flor ou ao almoço de domingo. A origem moderna da data nasceu nos Estados Unidos, no início do século XX, por iniciativa de Anna Jarvis, que desejava homenagear sua mãe, Ann Reeves Jarvis. A Library of Congress registra que Anna Jarvis iniciou sua campanha com uma cerimônia em memória da mãe em 10 de maio de 1908, e que, em 1914, o presidente Woodrow Wilson proclamou oficialmente o Dia das Mães nos Estados Unidos, no segundo domingo de maio (LIBRARY OF CONGRESS, 2014). No Brasil, a data foi oficializada pelo Decreto nº 21.366, de 5 de maio de 1932, que consagrou o segundo domingo de maio às mães, em homenagem aos sentimentos e virtudes despertados pelo amor materno (BRASIL, 1932).

Mas nenhuma lei, por mais bela que seja, alcança totalmente o território íntimo de uma mãe. O decreto organiza a data; a vida revela o milagre. Mãe é aquela que, mesmo cansada, permanece. É a mulher que assume a liderança do lar não por vaidade, mas por necessidade; não por discurso, mas por compromisso; não por escolha simples, mas porque a realidade, muitas vezes, não lhe deixou outra porta senão a da coragem.

Há mães que educam sozinhas. Mães que trabalham fora e dentro de casa, sem que o segundo trabalho receba salário, folga ou reconhecimento. O IBGE apontou que, em 2022, as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas, diferença de 9,6 horas semanais (IBGE, 2023). Por trás desse número, há uma cena: uma mulher lavando roupa tarde da noite, uma mãe acompanhando dever escolar depois do expediente, uma avó que se tornou mãe outra vez, uma trabalhadora que chega exausta e ainda precisa ser abrigo.

Há mães que choram por filhos que se perderam pelo caminho da droga, da violência, da ausência de esperança. Choram não porque falharam, mas porque amaram. Fizeram o possível e, muitas vezes, o impossível: ensinaram, acolheram, repreenderam, perdoaram, buscaram ajuda, oraram. Ainda assim, viram o mundo arrancar de seus braços aquele filho que um dia coube inteiro no colo. Essas mães carregam uma dor que não cabe em estatística. São mulheres que continuam amando mesmo quando já não sabem como salvar.

Há mães que choram porque não conseguem comprar alimento suficiente. Mulheres que conhecem a matemática cruel da pobreza: pagar a luz ou comprar o remédio; garantir o arroz ou quitar o aluguel; comprar o material escolar ou deixar uma conta para depois. O IPEA, em estudo recente, apontou que mães solo enfrentam maior vulnerabilidade no mercado de trabalho, com menor renda e inserção mais precária, revelando que a maternidade, para muitas, vem acompanhada de desigualdades econômicas profundas (IPEA, 2026). O mesmo estudo registra que as mães solo apresentavam rendimento médio de R$ 2.322,00, cerca de 40% inferior ao rendimento de pais com cônjuge, além de maior concentração em ocupações de baixa remuneração e menor proteção previdenciária (IPEA, 2026).

E, no entanto, essas mães seguem. Seguem com a dignidade de quem faz do pouco uma mesa possível. Seguem com a fé de quem transforma ausência em cuidado. Seguem com a sabedoria silenciosa de quem sabe que educar não é apenas mandar à escola, mas ensinar humanidade em meio à escassez. Elas não pedem veneração artificial. Pedem respeito. Pedem condições. Pedem justiça. Pedem que a sociedade compreenda que nenhuma criança floresce plenamente quando sua mãe é condenada a sobreviver no limite.

Celebramos, portanto, todas as mães: as biológicas, as adotivas, as mães de criação, as avós-mães, as madrastas que amam, as tias que acolhem, as professoras que maternam pela palavra, as mulheres que não geraram no ventre, mas geraram no afeto. Maternidade, em sua grandeza humana, é presença que sustenta, é cuidado que forma, é amor que educa sem esperar recompensa.

E celebramos também Maria Santíssima, mãe de Jesus, que merece respeito mesmo entre diferentes tradições religiosas. Na fé cristã, Maria é apresentada no Evangelho de Lucas como a mulher chamada a conceber Jesus, o Cristo, e sua figura atravessa os séculos como símbolo de entrega, coragem e maternidade espiritual (VATICAN NEWS, 2024). Respeitar Maria não exige que todos professem a mesma religião; exige apenas sensibilidade histórica, cultural e espiritual para reconhecer que, sem a mãe, não haveria o Filho na narrativa cristã.

O Dia das Mães, assim, não deve ser apenas uma data de consumo. Deve ser um chamado à memória e à consciência. Anna Jarvis, que tanto lutou pela criação da data, desejava uma homenagem sincera, nascida da gratidão e não apenas do comércio. Essa origem nos recorda que mãe não cabe em vitrine. Mãe cabe no abraço, na escuta, na presença, no cuidado concreto, no reconhecimento diário.

Porque mãe é a primeira casa. É o primeiro idioma do amor. É quem ensina o filho a andar, mas sofre quando ele escolhe caminhos escuros. É quem sorri na festa, mas chora na cozinha. É quem abençoa mesmo quando está ferida. É quem, tendo quase nada, ainda encontra uma forma de oferecer tudo.

Neste Dia das Mães, celebremos as flores, sim, mas não esqueçamos as raízes. Celebremos o almoço, mas não ignoremos a fome. Celebremos a beleza da maternidade, mas não romantizemos sua sobrecarga. Celebremos as mães vivas, honremos as que partiram e amparemos as que ainda lutam.

Porque toda mãe, de algum modo, carrega um pedaço do mundo no colo. E, quando uma mãe se levanta, ainda que cansada, é a própria esperança que decide continuar.

Juliano Toledo, Advogado, Pedagogo, Pós-graduado em Educação Ambiental e Direito Público

Referências

BRASIL. Decreto nº 21.366, de 5 de maio de 1932. Declara que o segundo domingo de maio é consagrado às mães. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-21366-5-maio-1932-559485-publicacaooriginal-81718-pe.html

. Acesso em: 10 maio 2026.

IBGE. Em 2022, mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas. Agência IBGE Notícias, Rio de Janeiro, 11 ago. 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/37621-em-2022-mulheres-dedicaram-9-6-horas-por-semana-a-mais-do-que-os-homens-aos-afazeres-domesticos-ou-ao-cuidado-de-pessoas

. Acesso em: 10 maio 2026.

IPEA. Mães solo recebem menos e ocupam empregos mais precários. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2026. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/16370-maes-solo-recebem-menos-e-ocupam-empregos-mais-precarios

. Acesso em: 10 maio 2026.

LIBRARY OF CONGRESS. Some Songs for Mother’s Day. Folklife Today, Washington, D.C., 2014. Disponível em: https://blogs.loc.gov/folklife/2014/05/songs-for-mothers-day/

. Acesso em: 10 maio 2026.

VATICAN NEWS. Evangelho de 8 de abril: Lucas 1,26-38. Vaticano, 8 abr. 2024. Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2024-04/evangelho-08-de-abril-2024-dom-mario-spaki.html

. Acesso em: 10 maio 2026.

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💬 Comentários


Meriane Saint'Clair Paes em 11/05/2026 20:23

Parabéns pelo artigo publicado...

Orgulho cada vez mais do senhor

Fazer parte das nossas vidas.