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07/06/2026 12:01 | Colunistas
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por Aline Borges

Remendos

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Ao meu tio, que aos 90 anos resumiu a vida em uma única frase.

Eu estava em uma festa de aniversário de 90 anos.

Noventa anos.

Só essa informação já carrega um peso que os mais jovens talvez não compreendam. Noventa anos são guerras que terminaram, tecnologias que nasceram, pessoas que chegaram e partiram, modas que vieram e desapareceram. Noventa anos são uma biblioteca inteira de histórias.

Por isso, quando meu tio começou a falar, todos prestaram atenção.

Talvez esperássemos uma fórmula para a longevidade.

Talvez um segredo para a felicidade.

Talvez uma coleção de conselhos sobre como viver bem.

Mas ele escolheu outro caminho.

Em determinado momento, disse apenas:

“A vida é feita de retalhos que devem ser remendados todos os dias.”

A frase pousou sobre a mesa com a simplicidade das grandes verdades.

Não houve aplauso imediato.

Primeiro veio o silêncio.

Porque algumas palavras não entram pelos ouvidos. Entram pela memória.

Passei o restante da noite pensando nelas.

Quando somos crianças, acreditamos que a vida será um tecido novo para sempre. Sem rasgos. Sem manchas. Sem costuras aparentes.

Depois crescemos.

E a vida começa seu trabalho.

Rasga planos cuidadosamente desenhados.

Desfia certezas que pareciam inabaláveis.

Leva pessoas que imaginávamos eternas.

Muda caminhos sem pedir licença.

Às vezes, rasga até pedaços de nós mesmos.

E então descobrimos algo que ninguém nos ensina na juventude: viver não é conservar o tecido intacto.

Viver é aprender a costurar.

Alguns remendos são discretos.

Outros ficam tão visíveis que se tornam impossíveis de esconder.

Há remendos feitos de coragem.

Há remendos feitos de fé.

Há remendos feitos de lágrimas.

Existem aqueles que fazemos sozinhos e aqueles que alguém amorosamente costura ao nosso lado quando nossas mãos já não conseguem segurar a agulha.

O mais curioso é que os remendos não diminuem o valor da peça.

Eles contam sua história. Ponto por ponto.

Uma colcha sem remendos talvez seja apenas nova, sem história.

Uma colcha cheia deles é uma sobrevivente.

Talvez seja isso que meu tio tenha aprendido em nove décadas.

A vida não premia quem evita os rasgos.

Ela amadurece quem aprende a reparar o que foi rompido.

Quem encontra força para recomeçar depois das perdas.

Quem continua acreditando depois das decepções.

Quem segue amando depois das despedidas.

Quem pega linha e agulha mais uma vez, mesmo quando jura que sua mão trêmula não conseguirá.

Naquela tarde, enquanto observava meu tio celebrar seus 90 anos, percebi que ele não estava nos ensinando sobre envelhecer.

Estava nos ensinando sobre permanecer.

Porque, no fim das contas, a vida não é feita das partes que ficaram perfeitas.

É feita dos remendos que tivemos coragem de fazer.

Todos os dias.

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💬 Comentários


Márcio Schalinski em 08/06/2026 09:27

Belo texto :)

Luciane Mina em 07/06/2026 19:48

ATÉ dos remendos precisamos cuidar.

M Aparecida Borges Pimentel Vargas em 07/06/2026 17:04

Li primeiro só pra mim. Estávamos na mesa de almoço comentando sobre a festa de ontem, os 90 anos do Papai. Não achei justo guardar só pra mim. Li em voz alta para todos, que se emocionaram junto comigo. Foi um chororô só. Não só pela sensibilidade do texto, mas por conhecermos e sermos parte da sua e também dessa "nossa" história. Por mais encontros como esse que só a Mamãe era capaz de fazer.

Patrícia Tourinho em 07/06/2026 16:16

Um lindeza em forma de letras.

Sylvana em 07/06/2026 14:02

Que texto perfeito. Agora quem ficou com a frase na cabeça fui eu. E esse texto está ecoando palavra por palavra e me fazendo entender os meus retalhos. Minha escritora preferida.