Senhor, não é que eu esteja reclamando, sei que tudo tem um porque, sei que é para meu aprendizado e evolução, compreendo também que tenho a minha bagagem que vem de muitas vidas anteriores, mas é que sabe Senhor, tenho me sentido tão cansada, uma exaustão que parece me habitar.
Tenho conhecimento também que a nossa Fé em Ti deve ser inabalável, e inclusive, foi através dessa Fé que eu me salvei e me salvo todos os dias, é por causa dela que hoje eu posso estar aqui falando com o Senhor. Mas então, o que eu estou mesmo tentando dizer, é que a vida aqui nesse planeta tem sido bastante exaustiva; e por favor, não me entenda mal. Esse é um necessário desabafo para esta pequena alma que vos fala, dessa sua filha tão falha.
E mesmo diante de todas as minhas dificuldades, o Senhor me presenteou com seres maravilhosos em minha vida, que me enchem e me cercam de amor e cuidado e com momentos inesquecíveis. E isso faz com que me sinta privilegiada, e sei que sou realmente, mas é que aqui nessa terra, Senhor, todos falam muito em dinheiro e por vezes ele realmente faz bastante falta, porém, a sensação que tenho às vezes, é que ele tomou conta de quase tudo e se nós não o temos em quantidade relevante, somos meros sobreviventes no meio a todo esse caos, que chamamos sociedade.
Sendo assim, gostaria de te pedir ajuda para lidar com todo esse barulho e também gostaria de pedir desculpas se de vez em quando penso em reclamar sobre a falta de algo. É que aqui nessa terra, temos a mania de querer sempre mais, mesmo quando já temos o suficiente.
As coisas aqui são um pouco estranhas, sabe. Muita gente valoriza demais o dinheiro e aí a gente vai se virando para pagar por serviços que são bem valorizados, e devem ser mesmo, porém em contrapartida o nosso serviço muitas vezes não é. Dinâmica confusa essa, não acha? É muito louco viver aqui e eu acho que no final, eu só gostaria que o Senhor me desse um pouco mais de força e talvez ideias novas, sei lá, algo que nos ajudasse a ter uma vida mais tranquila.
Senhor, sem querer explorar, mas será que é possível dar essa vida mais tranquila a todos aqueles que dela necessitam? E por favor, nos ajude a espalhar mais amor por esse nosso mundo, ele carece muito desse sentimento tão importante.
Obrigada por me ouvir, Senhor!
Há desabafos que não são reclamações. São orações cansadas. São palavras que chegam ao céu sem a pretensão de ensinar a Deus a governar o mundo, mas com a humildade de quem já não consegue carregar o próprio dia sem derramar alguma coisa pelo caminho.
A alma que fala assim não perdeu a fé. Ao contrário: talvez só consiga falar porque ainda crê. Porque há momentos em que a fé não aparece como canto, nem como certeza luminosa, mas como permanência. Ficar de pé, às vezes, já é uma forma de oração.
Vivemos dias de uma estranha pressa. Tudo escorre. O tempo escorre, as relações escorrem, os compromissos escorrem, a segurança escorre entre os dedos. Zygmunt Bauman chamou esse tempo de “modernidade líquida”: uma época em que nada parece conservar forma por muito tempo, em que o ser humano é convocado a se reinventar antes mesmo de compreender o próprio cansaço. E, nessa fluidez quase cruel, exige-se que todos sejam fortes, produtivos, úteis, vendáveis, sorridentes e ainda agradecidos.
Mas ninguém é máquina de vencer.
Há uma fadiga que não vem apenas do corpo. Vem da conta que vence, da palavra que falta, do serviço desvalorizado, do amor que tenta sobreviver entre boletos, do esforço diário de parecer inteiro quando, por dentro, a alma pede repouso. A sociedade fala muito em dinheiro, e não sem razão, porque o pão, a casa, o remédio e a dignidade também passam por ele. O problema começa quando o dinheiro deixa de ser meio e passa a ocupar o altar; quando o valor da pessoa passa a ser medido não pelo que ela é, mas pelo que ela acumula.
E então a vida se torna uma feira ruidosa: todos oferecendo, todos cobrando, todos correndo, poucos escutando.
Ainda assim, Cristo não ensinou o desprezo pela necessidade humana. Ele conheceu a fome, o cansaço, a travessia, a dor e o abandono. Mas ensinou que a preocupação não pode se transformar em senhora da alma. Ao falar das aves do céu, recordou que elas não semeiam nem colhem, e ainda assim o Pai Celeste as sustenta. Não foi convite à passividade; foi chamado à confiança. Como se dissesse: trabalhai, sim; lutai, sim; multiplicai o que recebestes, sim; mas não entregueis o coração ao desespero, porque há um Pai que vê o invisível e ampara até aquilo que o mundo não considera importante.
A parábola dos talentos também nos visita nesse ponto. Cada um recebe conforme sua medida, sua história, sua capacidade, seu tempo. Uns recebem cinco, outros dois, outros um. O erro não está em receber pouco; está em enterrar por medo aquilo que nos foi confiado. Há talentos que não são moedas: são paciência, escuta, escrita, cuidado, coragem, ternura, inteligência, fé, trabalho silencioso, capacidade de recomeçar. E, se cada pessoa multiplicasse ao menos um pouco do bem que recebeu, talvez o mundo fosse menos áspero.
Somos falhos, sim. Cansamos, reclamamos, tememos, desejamos mais do que precisamos, confundimos segurança com posse, confundimos valor com preço. Mas somos amados. E essa talvez seja a notícia mais revolucionária do Evangelho: Deus não ama apenas os fortes, os impecáveis, os que nunca fraquejam. O Pai ama também os filhos trêmulos, os que choram escondido, os que pedem desculpas por estarem cansados, os que agradecem e, ao mesmo tempo, confessam que já não sabem como continuar.
Por isso, a prece dessa pequena alma não é pequena. Ela é imensa em humanidade.
Pedir uma vida mais tranquila não é pecado. Pecado talvez seja aceitar como normal um mundo em que tantos vivem esmagados enquanto poucos transformam excesso em indiferença. Pedir ideias novas, força nova, caminhos mais justos e pão mais repartido é também uma forma de cooperar com Deus. Afinal, o amor divino não nos dispensa da responsabilidade humana; antes, nos convoca a sermos resposta na vida uns dos outros.
Que venha, então, a força. Não a força arrogante dos que nunca caem, mas a força mansa dos que se levantam. Que venha a tranquilidade possível, o sustento necessário, a sabedoria para distinguir desejo de necessidade, e a coragem para não permitir que a liquidez deste tempo dissolva aquilo que ainda há de eterno em nós.
Porque, no fim, Senhor, talvez seja isso: não queremos riqueza sem alma, nem vitória sem ternura, nem abundância sem partilha. Queremos apenas atravessar este mundo sem perder o amor, sem enterrar nossos talentos, sem esquecer que as aves continuam cantando porque o céu ainda cuida delas.
E, se cuida delas, também cuidará de nós.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BÍBLIA. Evangelho segundo Mateus. Capítulo 6, versículos 26-34; capítulo 25, versículos 14-30.