Era junho de 2026 quando o Brasil descobriu que a Copa do Mundo não era mais apenas sobre futebol. O país, sempre apaixonado pela camisa amarela, assistia aos jogos da Seleção com uma estranha sensação de que algo maior estava em jogo — e não apenas o placar.
A Copa começara em 11 de junho, coincidindo com o início oficial da pré-campanha eleitoral. O calendário, que normalmente separava o futebol da política, agora os fundia em uma só narrativa. O Brasil estreou em 13 de junho contra Marrocos, e o empate foi recebido com aquela mistura de esperança e apreensão que só o torcedor brasileiro conhece. Mas, enquanto a bola rolava no gramado, outra partida ocorria nos bastidores do poder.
No centro desse tabuleiro estavam dois homens: Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. O primeiro, presidente em exercício, tentava resgatar as cores verde e amarelas para a esquerda, dizendo que "a esquerda terá que andar de verde e amarelo". O segundo, principal adversário na disputa presidencial, convocava a torcida a vestir a "camisa do Bolsonaro", acusando o PT de ter "largado a bandeira do Brasil na lata do lixo". A Seleção, símbolo de unidade nacional, tornara-se território de disputa. [G1, 2026][POLÍTICA LIVRE, 2026]
O que antes era apenas um jogo virava estratégia de campanha. Ciro Gomes aparecia de camisa azul. Elmano de Freitas postava foto de amarelo. Outros usavam inteligência artificial para criar figurinhas de álbum da Copa. O futebol, que sempre fora linguagem comum, agora era dialeto de campanha. [PORTAL IN, 2026]
Enquanto isso, no Congresso Nacional, os parlamentares faziam sua própria partida. A Copa e as festas de São João reduziram o ritmo das votações. Ausentes de Brasília, muitos deputados e senadores aproveitavam os jogos para viajar às bases eleitorais. Pautas importantes — como o fim da escala 6x1 de trabalho e a PEC da Segurança — foram empurradas para o segundo semestre. O recesso parlamentar, marcado para 18 a 31 de julho, parecia um intervalo técnico em meio a um jogo acirrado. [G1, 2026]
Mas havia um perigo maior que a ausência de quórum: as chamadas "pautas-bomba". Eram propostas que criavam gastos bilionários sem indicar a fonte do dinheiro. Uma delas, aprovada em 10 de junho, permitia a renegociação de dívidas rurais com impacto de até R$ 140 bilhões em 13 anos. Outra garantia aposentadoria especial para agentes de saúde, custando R$ 30 bilhões em uma década. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, alertou: o governo poderia ir ao STF se necessário. [G1, 2026][O GLOBO, 2026]
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, sinalizou que o corte poderia intervir. A economia, já pressionada, via o dólar subir a R$ 5,06 e o Ibovespa fechar em queda. O petróleo avançava mais de 3%, impulsionado por tensões entre EUA e Irã — um conflito que, aliás, ameaçava a própria Copa, com o Irã declarando que não poderia jogar o Mundial "em hipótese alguma". [FORBES, 2026][BBC, 2026]
No dia 29 de junho, o Brasil venceu o Japão por 2 a 1 e avançou às oitavas. A torcida comemorou, mas o clima político permanecia tenso. Especialistas avaliavam que vitórias ou derrotas na Copa poderiam criar "gatilhos emocionais" no eleitorado, embora alertassem: a Copa une o país, mas não rende votos de forma direta. [O GLOBO, 2026][G1, 2026]
Em 5 de julho, nas oitavas de final, a Seleção foi desclassificada. A derrota para a Noruega encerrou a trajetória do Brasil no Mundial, mas não a disputa política em torno dela. Lula e Flávio continuariam a disputar a narrativa patriótica. O Congresso seguiria com suas pautas-bomba. O dólar permaneceria alto. E o cidadão comum, que celebrara cada gol com a camisa amarela, voltaria à realidade de uma economia instável e de um país dividido.
A Copa de 2026 mostrou que o futebol, no Brasil, nunca é apenas futebol. É espelho de um país que tenta se entender entre gols, votos e contas públicas. A Seleção pode ter sido desclassificada, mas a partida política continuava — e, como sempre, sem tempo regulamentar para terminar.
JULIANO TOLEDO, ADVOGADO, PEDAGOGO, PÓS-GRADUADO EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL E DIREITO PÚBLICO.
Referências
BBC. Copa do Mundo: Irã diz que não pode jogar Mundial em 'hipótese alguma'. London: BBC News Brasil, 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ceqvzr449y7o. Acesso em: 5 jul. 2026.
FORBES. Dólar Sobe Aos R$ 5,06 Puxado Pelo Cenário Político no Brasil e Pelo Exterior. São Paulo: Forbes Brasil, 2026. Disponível em: https://forbes.com.br/forbes-money/2026/05/dolar-sobe-aos-r-506-puxado-pelo-cenario-politico-no-brasil-e-pelo-exterior/. Acesso em: 5 jul. 2026.
G1. Copa do Mundo e São João devem reduzir votações no Congresso. Rio de Janeiro: Globo, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/06/12/copa-do-mundo-e-sao-joao-devem-reduzir-votacoes-no-congresso-veja-propostas-que.... Acesso em: 5 jul. 2026.
G1. Entenda o que são 'pautas-bomba', que pressionam orçamento do governo em ano eleitoral. Rio de Janeiro: Globo, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/06/11/entenda-o-que-sao-pautas-bomba-que-pressionam-orcamento-do-governo-em-ano-eleit.... Acesso em: 5 jul. 2026.
G1. Flávio e Lula disputam camisa da Seleção durante a Copa. Rio de Janeiro: Globo, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/06/12/flavio-pede-torcida-com-camisa-do-bolsonaro-na-copa-e-lula-quer-e.... Acesso em: 5 jul. 2026.
G1. Um título do Brasil na Copa pode ajudar ou atrapalhar candidatos a presidente? Rio de Janeiro: Globo, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/noticia/2026/07/04/um-titulo-do-brasil-na-copa-pode-ajudar-ou-atrapalhar-candidatos-.... Acesso em: 5 jul. 2026.
O GLOBO. A Copa une o país, mas não rende votos. Rio de Janeiro: Globo, 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/thomas-traumann/coluna/2026/06/a-copa-une-o-pais-mas-nao-rende-votos.ghtml. Acesso em: 5 jul. 2026.
O GLOBO. Copa do Mundo gera disputa política de Lula e Flávio por seleção. Rio de Janeiro: Globo, 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/14/copa-do-mundo-gera-disputa-politica-de-lula-e-flavio-por-selecao-e-campanha.... Acesso em: 5 jul. 2026.
O GLOBO. Durigan e ministros do STF discutem pautas-bomba do Congresso. Rio de Janeiro: Globo, 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2026-06/durigan-e-ministros-do-stf-discutem-pautas-bomba-do-congresso. Acesso em: 5 jul. 2026.
POLÍTICA LIVRE. Copa do Mundo vira palco de disputa política entre Lula e Flávio Bolsonaro. Brasília: Política Livre, 2026. Disponível em: https://www.politicalivre.com.br/2026/06/copa-do-mundo-vira-palco-de-disputa-politica-entre-lula-e-flavio-bolsonaro. Acesso em: 5 jul. 2026.
PORTAL IN. A Copa da pré-campanha: como o Mundial de Futebol virou ativo político em 2026. São Paulo: Portal IN, 2026. Disponível em: https://www.portalin.com.br/in-connection/a-copa-da-pre-campanha-como-o-mundial-de-futebol-virou-ativo-politico-em-2026/. Acesso em: 5 jul. 2026.
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