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22/07/2026 10:04 | Sociedade

Psicóloga e colunista fala sobre feminicídio ao Atualiza

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Pergunta: Quais costumam ser os sinais mais sutis de um relacionamento abusivo ou de escalada de violência interpessoal que a sociedade e até as próprias vítimas muitas vezes têm dificuldade de identificar antes que ocorra uma tragédia?

Quando pensamos em violência doméstica, muitas pessoas imaginam apenas a agressão física. Porém, quase sempre ela é precedida por uma violência psicológica, que vai se tornando parte da rotina de forma gradual.

Alguns sinais incluem ciúme excessivo tratado como prova de amor, controle sobre amizades, roupas, redes sociais e horários, necessidade constante de saber onde a parceira está, críticas frequentes que diminuem sua autoestima, manipulação emocional, chantagens e explosões de raiva seguidas de pedidos de desculpas.

O maior risco é que esse processo acontece lentamente. A vítima vai adaptando seus comportamentos para evitar conflitos e, aos poucos, perde a percepção de que está vivendo uma relação abusiva. É justamente essa normalização que torna a violência tão difícil de ser identificada.

2. O mito da proteção pelo conhecimento

Pergunta: Como a psicologia explica o fato de que a emancipação financeira e o alto nível educacional não protegem a mulher da violência doméstica?

Esse é um dos maiores mitos que precisamos desconstruir. A violência doméstica não escolhe profissão, escolaridade ou classe social.

Ser uma mulher independente financeiramente ou altamente instruída não impede que ela desenvolva vínculos afetivos, tenha expectativas sobre um relacionamento ou seja exposta a mecanismos sofisticados de manipulação emocional.

O agressor costuma alternar momentos de carinho, arrependimento e promessas de mudança com episódios de violência, criando um ciclo que gera esperança e confusão emocional.

Além disso, existe o medo das consequências da separação, da escalada da violência, do julgamento social e, muitas vezes, a preocupação com filhos e familiares. Portanto, a permanência em uma relação abusiva nunca deve ser interpretada como fraqueza, mas compreendida dentro da complexidade psicológica e emocional que envolve esses vínculos.

3. A dinâmica do feminicídio seguido de suicídio

Pergunta: Sob a ótica da psicologia, quais mecanismos costumam estar presentes em casos em que o agressor mata a companheira e, em seguida, tira a própria vida?

Cada caso possui características próprias e somente uma investigação pode esclarecer as circunstâncias específicas. Entretanto, em muitos casos semelhantes, observa-se uma dinâmica marcada por extremo sentimento de posse, necessidade de controle e incapacidade de aceitar o rompimento ou a autonomia da parceira.

Alguns agressores apresentam uma visão distorcida do relacionamento, tratando a companheira como uma extensão de si mesmos. Quando percebem que estão perdendo esse controle, podem interpretar a separação como uma ameaça intolerável à própria identidade.

É importante destacar que esses comportamentos não decorrem simplesmente de “amor em excesso”. Amor saudável respeita liberdade e autonomia. O que frequentemente aparece nesses casos é violência, controle e uma percepção distorcida sobre o direito de decidir a vida do outro.

4. O impacto do trauma e do luto coletivo

Pergunta: Como alunos, colegas e a comunidade podem processar um luto tão violento?

Quando uma morte ocorre de forma violenta, especialmente envolvendo alguém conhecido pela comunidade, o impacto ultrapassa a família e alcança todos que mantinham algum vínculo com essa pessoa.

É comum surgirem sentimentos de medo, tristeza profunda, incredulidade, revolta, culpa e até ansiedade diante da sensação de que “isso poderia acontecer com qualquer um”.

O primeiro passo é compreender que não existe uma forma correta de viver o luto. Falar sobre a perda, acolher as emoções, evitar a exposição excessiva às notícias e buscar apoio psicológico quando necessário são estratégias importantes.

Nas escolas e instituições, espaços de escuta qualificada fazem diferença para que as pessoas possam elaborar esse trauma.

5. Rompimento do ciclo e primeiros passos

Pergunta: Para mulheres que estão identificando comportamentos abusivos em seus relacionamentos, qual é o caminho emocional seguro para pedir ajuda?

O primeiro passo é acreditar na própria percepção. Muitas mulheres minimizam sinais de violência porque ouviram repetidamente que estão exagerando ou imaginando situações.

Reconhecer que existe um problema já representa um avanço importante.

Depois disso, é fundamental procurar pessoas de confiança, fortalecer a rede de apoio e buscar orientação especializada. Dependendo da situação, também pode ser necessário recorrer aos serviços de proteção previstos na legislação.

O mais importante é entender que sair de um relacionamento abusivo costuma ser um processo, e não um único momento. Cada mulher possui seu tempo, sua realidade e seus desafios. O acolhimento precisa respeitar essa individualidade.

6. Acolhimento e o papel da rede de apoio

Pergunta: Como amigos e familiares podem ajudar sem julgar ou revitimizar essa mulher?

A rede de apoio pode ser decisiva.

Muitas vezes, na tentativa de ajudar, as pessoas perguntam: “Por que você não saiu antes?” ou “Eu já tinha avisado”. Embora pareçam perguntas simples, elas aumentam a culpa e o isolamento da vítima.

Uma postura mais acolhedora envolve ouvir sem julgamento, validar os sentimentos, demonstrar disponibilidade e respeitar o tempo da mulher.

Frases como “Eu acredito em você”, “Você não está sozinha” e “Quando precisar, estarei aqui” costumam produzir muito mais segurança do que cobranças.

Também é importante estimular, quando necessário, a busca por atendimento psicológico, orientação jurídica e serviços especializados de proteção.

A violência doméstica não é um problema individual; é uma questão de saúde pública e responsabilidade coletiva. Quanto mais fortalecermos a informação, a escuta e as redes de proteção, maiores serão as possibilidades de prevenir novas tragédias.

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