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30/07/2026 13:21 | Articulistas

I am lost

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Eu tinha três tarefas.

Só três.

Comer alguma coisa.

Guardar o carro na garagem.

Terminar de editar o meu site no computador.

Eu havia acabado de gravar um vídeo para o Atualiza Aí quando percebi que ventava muito. Pouco depois, meu marido me enviou um vídeo alertando sobre ventos fortes no estado do Rio de Janeiro.

Foi quando me lembrei de que meu carro estava na rua.

Também estava com fome.

Pensei:

— Vou descer, comer alguma coisa, guardar o carro e aproveitar para terminar de editar o site.

Meu “ateliêscritório” fica no térreo. Era um plano simples, rápido, lógico e eficiente.

O tipo de plano feito por alguém que ainda acredita que o próprio dia obedecerá a alguma sequência.

Iludida, desci.

Abri a porta que dá para a garagem e ouvi um passarinho cantando sem parar. O som parecia vir de muito perto. Tão perto que pensei que ele pudesse estar preso em algum lugar.

Fechei a porta e comecei a procurá-lo.

Olhei para cima. Para os muros. Para as janelas. Caminhei pelo pátio de serviço inteiro seguindo o canto com os ouvidos, porque os olhos não encontravam nada.

O vento levantava a fuligem e a casa tinha sido faxinada naquele mesmo dia.

Corri para fechar a porta que dava para a cozinha.

Foi quando me lembrei de que estava com fome.

Abri a despensa. Olhei tudo. Não quis nada.

Fechei a despensa.

Ouvi o passarinho novamente.

Fui para o quintal.

Olhei para o teto, para os muros, para a piscina, para todos os lugares onde um passarinho poderia estar — e também para alguns onde passarinho nenhum estaria, mas, naquele momento, vai saber.

Caminhei até o fim do quintal e vi Dudu no sofá, assistindo à televisão.

Chamei-o para me ajudar na busca.

Então olhei acima do telhado do espaço gourmet e finalmente encontrei o dito-cujo: estava no alto de uma folha da palmeira-rabo-de-raposa da minha vizinha.

Peguei o celular. Tirei uma foto. Chamei Dudu para vê-lo.

Subi para tentar fotografá-lo pela janela lateral.

Ele voou.

Nesse momento, o vento bateu a porta do quarto.

O estrondo provocou um estalo dentro da minha cabeça:

O carro!

Desci novamente.

Fui até a frente de casa, guardei o carro na garagem e acendi a luz. Arthur chegou. Tranquei a casa.

Então parei.

Olhei para o lado, para lugar nenhum, com aquele olhar vago de quem parecia estar procurando alguma coisa.

Talvez eu estivesse procurando por mim mesma. Custei a entender o que eu fazia ali, parada.

Foi quando me lembrei de que também tinha descido para trabalhar no site.

Mas eu já estava tão exausta mentalmente que não me restava energia para sentar diante do computador.

Subi.

Só queria escrever um pouco para relaxar.

Ao abrir minha lista de tarefas pendentes — muitas, por sinal, o que também não chega a ser uma surpresa na vida de alguém com TDAH (laudada, sem orgulho nenhum) — encontrei um item sobre o vídeo do Kamasutra Radiológico.

Lembrei que já havia produzido aquele conteúdo. Só não lembrava em qual formato.

Era reel?

Story?

Carrossel?

Abri o Instagram apenas para conferir e voltar pra dar check na lista de tarefas. Menos uma aba mental aberta, pensou a pobre escritora que vos fala.

Antes disso, porém, pensei em ouvir alguma frequência no Spotify. Aquelas pra acalmar a mente, sabe? Então me lembrei de que não pago mais a versão Premium, que entraria uma propaganda no meio e que eu certamente perderia a paciência que nem tenho.

Por algum caminho que fez todo sentido dentro da minha cabeça durante aproximadamente três segundos, lembrei-me do Instagram.

Foi quando surgiu um vídeo de Jamie McDermott cantando In This Shirt.

Deus do céu, que voz linda.

Hipnotizante.

Assisti ao vídeo e não entendia por que ele parecia estar em um looping infinito.

Li os comentários e me irritei com os não admiradores da arte ao ponto de dar taquicardia.

Depois vieram vídeos sobre impressoras 3D. Credo, que lindo! Novo hiperfoco desbloqueado com sucesso.

Ah, e um vídeo sobre autismo.

Música inglesa.

Um site sobre livros do mundo inteiro – óbvio que eu pesquisaria.

Quando voltei para a conversa em que estava minha lista de tarefas, mais de vinte minutos haviam se passado.

E eu ainda não tinha descoberto se o Kamasutra Radiológico era reel, story ou carrossel.

Não perdi apenas o timing.

Perdi vinte minutos da minha vida sem perceber que os estava perdendo.

As pessoas costumam brincar com o TDAH.

Eu também brinco. Com limites.

O humor é uma das formas que encontrei de colocar corrimão nos meus abismos.

Mas o TDAH não é apenas entrar em um cômodo e esquecer o que foi buscar. Não é uma distração engraçadinha, um excesso de criatividade ou uma coleção de abas abertas na cabeça.

É saber exatamente o que precisa ser feito e, em algum ponto do caminho, deixar de saber.

É começar uma tarefa simples e ser capturada por cada estímulo que aparece com urgência suficiente para ocupar o lugar da intenção anterior.

O vento era real.

A fuligem era real.

O passarinho era real.

A fome era real.

O carro na rua também era real.

Nenhuma dessas coisas era invenção.

O problema é que todas chegaram à minha mente exigindo o primeiro lugar. E, a cada mudança de direção, eu precisava reconstruir a rota que havia desaparecido.

Talvez um episódio isolado seja engraçado.

O passarinho.

O carro.

O Spotify.

O Jamie.

O Kamasutra Radiológico.

O cansaço está na repetição.

Está em passar o dia inteiro tentando voltar para tarefas que continuam paradas, enquanto toda a energia foi consumida nos caminhos abertos entre uma coisa e outra.

No fim, guardei o carro.

Encontrei o passarinho.

Tirei a foto.

Tomei um iogurte.

E, depois de uma segunda expedição cuidadosamente supervisionada ao Instagram, descobri que o Kamasutra Radiológico era um reel.

Mas não editei o site. A essa altura o cansaço já era físico também.

Na fotografia, o passarinho aparece minúsculo no alto da palmeira, cercado por um céu imenso.

Talvez a minha mente funcione assim: uma coisa pequenininha surge e, de repente, ocupa o céu inteiro.

O mais irônico é que, durante todo o tempo em que estive perdida, Jamie repetia:

“I am lost, I am lost, I am lost…”

Eu só conseguia pensar na beleza da voz dele.

Não percebi que estava cantando sobre mim.

É muito cansativo viver em mim.

Escrevi essa frase e pensei que o dia finalmente tivesse terminado.

Não tinha. Doce escritora iludida.

Levantei da cama para tomar meus remédios.

Separei todos, como faço habitualmente, e percebi que alguns estavam acabando. Precisava pedi-los na farmácia no dia seguinte, sem falta.

Decidi anotar.

Não confiaria essa informação justamente à mente que eu passara as últimas horas tentando reencontrar.

Procurei um post-it na gaveta por vários minutos. Não achei.

Peguei um bloquinho e uma caneta. Eu deixaria o aviso bem visível sobre a mesa de cabeceira.

Sentei na cama com o bloquinho nas mãos.

Peguei também um livro que havia começado a ler.

Folheei.

Encontrei um capítulo que, por algum motivo na minha cabeça de sala amarela de hospital, parecia precisar ser lido naquela mesma noite.

Não encontrei um marcador de páginas. Pensei na Bienal e na utilidade dos marcadores que ganharia.

Usei o fio do carregador do meu fone.

Coloquei o livro sobre a mesa de cabeceira e voltei ao bloquinho para finalmente anotar os remédios imprescindíveis.

Foi quando encontrei uma carta que escrevi para o meu pai.

Não havia data, mas sei que era de 2026, porque o bloquinho foi um mimo enviado pela querida escritora Amélia Greier junto com seu livro.

Livro sobre o qual eu disse que faria uma resenha.

Não fiz.

Shame on me.

O título do livro?

“O peso da inexistência.” Inclusive, leiam.

O texto não tem relação alguma com o TDAH.

Mas aquele título me fez olhar para o nada e pensar em como, às vezes, somos inexistentes dentro de nós mesmos.

Pensar cansa. Muito.

Meu corpo começou a cobrar a conta.

Sudorese, taquicardia.

A coluna queimando.

A cabeça doendo.

Fadiga gritando.

A crise de disautonomia rufando os tambores.

Lembrei que havia sal no quarto.

Estava na gaveta.

Levantei. Abri a gaveta. Peguei o sal. Coloquei debaixo da língua.

Deu sede.

Olhei para a garrafa de água.

E, ao lado dela, jaziam os comprimidos que, não sei quanto tempo antes, eu havia me levantado para tomar.

Aqueles comprimidos eram o início de tudo.

Eu tinha saído da cama para tomá-los.

No caminho, encontrei remédios para comprar, um post-it inexistente, um bloquinho, um livro, um capítulo urgente, um fio transformado em marcador, Bienal, uma carta para o meu pai, a resenha que não fiz, uma crise de disautonomia, uma gaveta e um pouco de sal.

Foi preciso que o meu próprio corpo sentisse sede para me conduzir de volta ao ponto de partida.

Os comprimidos continuaram ali durante todo o tempo.

Visíveis.

Eu é que havia desaparecido da intenção que me fez levantar.

A inexistência pesa, querido leitor.

E não é na balança.

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💬 Comentários


Anna Margareth Moser em 30/07/2026 13:56

Que incrível seu relato, perfeito. Ainda não tinha visto algo tão natural ser retratado com tanta veracidade de quem tem tdah, meu filho foi diagnóstico recente, quase um adulto hoje, e eu não tinha visto nem ouvido o que é realmente essa mente que não pára..... parabéns por nos dar esse depoimento cheio de detalhes tbm.

Márcio Schalinski em 30/07/2026 13:46

Estava lendo, concentrado na tua jornada. Quando chegou na parte do cantor, pausei e fui buscar a música e o cantor (não conhecia). Dei play e continuei a leitura que ficou ainda melhor. Obrigado por compartilhar (o texto e a música) :)