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05/08/2026 16:54 | Colunistas
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por Cláudio Andrade

​Política Pop

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O eleitor no camarote da novela eleitoral

​Por que o debate sobre a lotação das emergências hospitalares ou o índice de alfabetização infantil nunca ganha a mesma tração que uma declaração fora de tom ou uma troca de acusações entre candidatos? A resposta é simples, mas incômoda: a política brasileira abandonou a arena dos projetos e se mudou em definitivo para o horário nobre da dramaturgia.

​No cenário eleitoral contemporâneo, a gestão pública perdeu o protagonismo para o entretenimento. O debate necessário aquele que deveria debruçar sobre números da segurança pública, gargalos da educação e financiamento da saúde foi atropelado pela lógica do folhetim. A eleição virou uma grande novela com episódios diários, ganchos emocionais e reviravoltas desenhadas para prender a atenção do público até o próximo bloco comercial.

​O algoritmo da indignação

​Essa dinâmica não é um acidente; é um método. Discutir a viabilidade fiscal de uma reforma tributária exige tempo, repertório e paciência. Já reagir a um escândalo, uma fala tirada de contexto ou uma acusação pessoal exige apenas paixão.

​Em cada "capítulo" dessa trama:

​Um candidato vira o vilão da semana: Enfrenta acusações, gera enxurrada de memes e vê sua rejeição oscilar nas pesquisas.

​O adversário assume o papel de mocinho (ou de vingador): Explora o desgaste alheio, ganha Ibope, gera cortes para redes sociais e engajamento da sua base.

​A audiência engaja: O público curte, compartilha, discute no grupo de família e consome o escândalo como quem comenta o paredão de um reality show.

​O custo do entretenimento: o eleitor vira mero espectador

​O maior problema desse fenômeno não é apenas o nível raso do debate, mas a inversão de papéis no processo democrático.

​Quando a eleição se transforma em novela, o cidadão deixa de atuar como mandante e fiscal da coisa pública para virar mero espectador. Em vez de cobrar metas concretas de governantes como tempo de espera para exames na rede pública ou redução de homicídios, a população passa a torcer pelo seu "personagem" favorito e vibrar com os ataques desferidos contra o rival.

​Enquanto a audiência se diverte ou se indigna com as intrigas do elenco, os problemas estruturais do país seguem sem roteiro de solução. No final das contas, quando sobem os créditos e a eleição acaba, a novela fecha a cortina, mas quem continua pagando a conta da má gestão é o espectador da primeira fila.

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