Enquanto digito caolha, o mundo segue seu curso através de olhos que nem sempre querem ver.
Não fecho o olho direito porque quero.
Fecho porque ele arde.
Dói.
Talvez seja mais uma lesão na córnea. Talvez seja só mais uma das pequenas rebeliões que meu corpo organiza sem consultar a minha agenda.
Apoio o celular sobre uma caneca de café já vazia.
Na prática, a caneca está vazia.
No meu sangue, não.
Ao redor, o mundo parece ter decidido fazer um ensaio geral sem autorização.
As crianças da casa ao lado gritam.
O pai fala mais alto do que elas.
Um passarinho, empoleirado na folha mais alta da palmeira da vizinha, canta como se disputasse um campeonato de resistência. (Eu amo passarinhos, but… “Not today, Satan.”)
Minha geladeira emite um barulho que lembra seus últimos suspiros.
O vento atravessa as folhas que batem umas nas outras feito papel amassado.
A garrafa de café assovia.
E, por trás de tudo isso, existe um som metálico que quase ninguém parece perceber.
O da eletricidade.
Até o silêncio faz barulho.
Tudo acontece ao mesmo tempo.
Há dias em que sinto que meus ouvidos desaprenderam a escolher o que merece atenção.
Eles captam tudo.
O grito.
O vento.
A geladeira.
O pássaro.
A eletricidade.
O silêncio.
Até a quinta-feira tem cor! Vejo ela verde. A quarta era roxa e a terça, azul.
Tudo chega junto.
Tudo chega alto.
Amplificado.
Não sei se existe alguma explicação científica para isso.
Talvez exista.
Talvez a dor amplifique os sentidos.
Ou talvez seja apenas o meu cérebro tentando sobreviver num mundo onde tudo parece estar com o volume acima do suportável.
Enquanto isso, meu dedo mindinho dói.
É curioso como uma parte tão pequena do corpo consegue ocupar um espaço tão grande dentro da gente.
Engraçado…
A dor quase nunca faz barulho.
Quem faz é o mundo.
A dor apenas amplifica.
Ela pega um passarinho e transforma em sirene.
Uma conversa vira discussão.
Uma lâmpada vira farol.
O silêncio ganha ruído.
Ela aumenta tudo o que já existia.
Inclusive aquilo que ninguém mais parece ouvir.
Hoje meu marido quis sair para jantar.
Em outro dia eu iria.
Hoje eu disse não.
Não porque não gosto de sair.
Não porque quero me esconder do mundo.
Mas porque, às vezes, sobreviver também é fechar a janela, colocar os fones de ouvido e diminuir o volume da vida.
Quem vê de fora talvez pense que é exagero.
Quem vive isso sabe que não é.
Talvez seja por isso que eu escreva.
Não para explicar a minha dor.
Nem para convencer ninguém de que ela existe.
Escrevo porque algumas experiências permanecem sem nome até que alguém encontre palavras para elas.
E, quando isso acontece, a gente descobre que não estava sozinho.
Se esta crônica encontrou justamente você, que também já sentiu o mundo chegar alto demais… e doeu
Respira.
Talvez você também não seja exagerado.
Talvez apenas esteja ouvindo uma frequência que o restante do mundo não consegue escutar.
E talvez a sua dor também não aumente o volume do mundo.
Talvez ela apenas revele que, às vezes, viver já é barulhento o bastante.
O resto…
É AmplificaDor.
Lindo texto amiga. Algumas partes foram descritas pra mim.
So um conselho de amiga. Quando seu marido te chamar pra jantar fora vá mesmo sem ânimo, muda-se o ambiente e logo você esquece por alguns momentos das coisas que te incomodam São raros os homens que fazem isso
Bjos no coração
Sou sua fã
Texto muito bonito.
Tudo o q queria falar , o seu amigo comentou muito bem , analisando seus parágrafos.
Parabéns, amiga! Que texto lindo... Tantos significados... Estou ansiosa pelo lançamento do livro!
Abri pra ler o texto da Aline, que já tinha certeza seria excepcional e, do nada, me deparo num mero comentário, com um texto que me prendeu tanto quanto o da autora. Ganhei duplamente. Gosto, e gosto muito, de pessoas inteligentes. Mas não somente inteligentes, dos inteligentes que trazem junto a sensibilidade. Obrigada aos dois por nos oferecer um texto inteligente mas carregado de tanta sensibilidade. Muito obrigada.
Mais uma crônica muito boa! Parabéns 👏👏👏👏👏👏!
Juliano, confesso que terminei de ler seu comentário e precisei ficar alguns minutos em silêncio antes de responder.
Porque há uma diferença enorme entre alguém ler aquilo que escrevemos e alguém realmente enxergar o lugar de onde aquelas palavras nasceram.
Você enxergou.
AmplificaDor nasceu justamente dessa tentativa de colocar em palavras uma experiência que, muitas vezes, é difícil até para mim explicar. E você não apenas compreendeu o texto — você alcançou nuances que talvez eu mesma ainda não tivesse percebido enquanto escrevia.
Quando você diz que talvez a escrita também seja um amplificador, mas de outra natureza, senti que você devolveu ao meu texto uma nova camada de significado.
Talvez seja mesmo isso que eu procure quando escrevo: amplificar o que costuma passar despercebido. Dar nome ao invisível. Fazer com que alguém, em algum lugar, reconheça uma parte de si e pense: “Era isso.”
Seu comentário fez isso comigo.
Obrigada pela leitura tão generosa, tão cuidadosa e, sobretudo, tão empática.
Para quem escreve sobre aquilo que dói, ser compreendida dessa maneira é um presente enorme.
Obrigada por ter escutado a minha quinta-feira verde. 💚
E espero, de coração, que o meu livro Refém de mim (lançamento em breve!) o atravesse como essa crônica o atravessou.
Ler AmplificaDor, de Aline Borges, é entrar por alguns minutos num lugar muito particular: aquele em que o mundo continua exatamente o mesmo, mas tudo parece chegar mais perto, mais forte, mais alto.
Talvez seja isso o que mais me tocou no texto.
Aline não tenta nos convencer de que sente dor. Ela não pede licença para sofrer, não procura tornar o sofrimento grandioso e nem transforma a própria experiência em espetáculo. Faz algo muito mais difícil: simplesmente nos permite escutar o mundo a partir de onde ela está.
E, de repente, escutamos também.
A geladeira deixa de ser apenas uma geladeira. O passarinho deixa de ser apenas um passarinho. O vento nas folhas, a garrafa de café, a eletricidade, uma conversa na casa ao lado, uma lâmpada acesa — tudo ganha uma intensidade diferente.
Até o silêncio faz barulho.
Essa frase ficou comigo.
Porque talvez existam dias assim para muita gente: dias em que não é exatamente o mundo que mudou; somos nós que, por alguma razão, perdemos a capacidade de diminuir o seu volume.
E então qualquer pequena coisa pode se tornar enorme.
Até um dedo mindinho.
Há uma passagem muito bonita quando Aline observa como uma parte tão pequena do corpo consegue ocupar um espaço tão grande dentro de nós. Parece falar do dedo, mas está falando de muito mais. Dor tem essa estranha capacidade de alterar proporções. O que para alguém parece mínimo pode ocupar quase todo o espaço interior de quem sente.
É por isso que uma das ideias mais fortes do texto está justamente na percepção de que **a dor nem sempre produz o barulho; às vezes ela apenas amplifica aquilo que já estava ali**.
Um pássaro vira sirene.
Uma conversa parece discussão.
Uma lâmpada se transforma em farol.
E o mundo, aparentemente normal para todos os outros, torna-se difícil demais para quem está dentro daquela experiência.
É nesse ponto que o texto ultrapassa a história particular da autora.
Ele passa a falar também sobre empatia.
Sobre a facilidade que temos de medir a dor do outro com a régua do nosso próprio corpo.
O que eu tolero pode ser insuportável para você.
O que para mim é apenas um ruído talvez atravesse outra pessoa como uma agressão.
O que alguém chama de exagero pode ser simplesmente uma experiência que ele nunca viveu.
E talvez uma das coisas mais humanas que podemos aprender seja justamente esta: **nem tudo aquilo que não conseguimos compreender deixa de ser verdadeiro para quem sente.**
A literatura de Cora Coralina tantas vezes encontrou grandeza justamente nas coisas pequenas da vida cotidiana. Mario Quintana possuía esse olhar capaz de perceber o extraordinário escondido no aparentemente banal. Rubem Alves, por sua vez, escreveu tantas vezes sobre essa misteriosa capacidade humana de transformar aquilo que nos atravessa em palavra, pensamento e criação.
Aline faz algo próximo disso sem parecer estar tentando fazer.
Ela pega uma quinta-feira qualquer — uma quinta-feira que, para ela, inclusive é verde — e a transforma em literatura.
Aliás, esse pequeno trecho das cores dos dias talvez seja um dos momentos mais delicados do texto.
A terça é azul.
A quarta, roxa.
A quinta, verde.
E não é necessário explicar.
A poesia começa justamente onde a obrigação de explicar termina.
Há também algo muito bonito na recusa ao jantar.
“Hoje eu disse não.”
Não existe drama naquela decisão.
Existe limite.
E talvez precisemos aprender a respeitar mais essa palavra.
Há dias em que coragem significa sair de casa.
Em outros, coragem pode signific reconhecer que não conseguimos sair.
Fechar a janela.
Colocar os fones.
Diminuir um pouco o volume da vida.
Não como desistência, mas como cuidado.
Vivemos em um tempo que exige disponibilidade permanente. Temos de comparecer, responder, produzir, conversar, sorrir, estar presentes, funcionar.
Mas o corpo nem sempre concorda com a agenda.
Aline escreve isso quase de passagem quando diz que o corpo organiza suas pequenas rebeliões sem consultá-la.
Talvez o corpo seja exatamente assim.
Ele não lê nossos compromissos.
Não conhece nossos prazos.
Não pergunta se hoje seria um bom dia para doer.
Simplesmente acontece.
E então resta a tarefa profundamente humana de aprender a habitar esse corpo também nos dias em que ele se torna difícil.
Por isso considero especialmente bonita a explicação que a autora oferece para a própria escrita.
Ela não escreve para provar que sua dor existe.
Escreve porque algumas experiências permanecem sem nome até que alguém encontre palavras para elas.
Essa talvez seja uma das definições mais bonitas da literatura.
Há sentimentos que carregamos durante anos sem conseguir explicar.
Sensações confusas.
Medos.
Incômodos.
Saudades.
Dores.
Então alguém escreve uma frase e, de repente, reconhecemos alguma coisa nossa ali.
É como se a palavra acendesse uma pequena luz:
“Era isso.”
“Então existe nome para isso.”
“Então alguém também sente.”
E talvez seja justamente aí que a literatura realiza uma de suas maiores delicadezas: ela não elimina necessariamente a solidão, mas permite que duas solidões se reconheçam.
Por isso o final de **AmplificaDor** é tão feliz.
O título é um jogo de palavras, sim, mas não apenas isso.
Há uma ideia inteira escondida dentro dele.
Amplifica.
Dor.
Amplificador.
A dor como aquilo que aumenta frequências que talvez já estivessem presentes.
Mas eu acrescentaria uma última possibilidade.
Talvez a escrita também seja um amplificador.
Só que de outra natureza.
Ela amplifica aquilo que normalmente ninguém percebe.
Amplifica o pequeno.
Amplifica o invisível.
Amplifica experiências que poderiam permanecer trancadas dentro de uma única pessoa.
E, quando Aline escreve, algo deixa de pertencer somente a ela.
Aquela quinta-feira verde passa a existir um pouco dentro de quem lê.
O passarinho também canta em nossos ouvidos.
A geladeira também geme.
A lâmpada também parece forte demais.
E, por alguns minutos, nós enxergamos o mundo através de um olho que arde.
Talvez seja essa uma das maiores virtudes do texto de Aline Borges:
não pedir que sintamos pena.
Pedir, silenciosamente, que percebamos.
E perceber o outro com verdade já é, em si, uma forma muito profunda de cuidado.
Parabéns pelo belo texto!