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23/08/2026 02:08 | Articulistas

A segunda não era a última

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Tentaram uma vez.

Não deu certo.

Tentaram a segunda.

Também não.

Na terceira, funcionou.

Parece uma sequência simples quando escrevo assim. Um, dois, três. Uma criança pequena resolveria essa conta nos dedos.

O problema é que, entre um número e outro, eu podia morrer.

Na primeira tentativa, ninguém sabia se precisaríamos de uma segunda. Na segunda, eu certamente não sabia que precisaria de uma terceira.

Eu só precisava continuar viva até ela.

Anos depois, li a notícia de que uma doença ultrarrara havia ganhado seu segundo tratamento aprovado.

Segundo.

Para quem está acostumado a entrar numa farmácia e encontrar uma prateleira inteira de possibilidades, duas opções podem parecer quase nada.

Para mim, duas são uma multidão.

Porque eu sei o que significa precisar que exista a próxima.

Quando adoeci, meu corpo não respondeu como deveria ao primeiro tratamento. Tentaram outro. Também não foi suficiente.

E ainda havia um terceiro.

Essa talvez seja uma das frases mais importantes da minha história e, curiosamente, eu nunca tinha pensado nela desse jeito:

ainda havia um terceiro.

Não precisei inventá-lo.

Não precisei esperar anos por uma pesquisa.

Não precisei torcer para que algum laboratório descobrisse, a tempo, uma molécula que pudesse me salvar.

Quando as duas primeiras possibilidades falharam, havia outra esperando na prateleira da medicina.

E foi ela que funcionou.

Eu não sobrevivi apenas porque um tratamento deu certo.

Eu sobrevivi porque, quando os outros deram errado, as possibilidades ainda não tinham acabado.

Há pessoas para quem não existe terceira.

Há pessoas para quem não existe segunda.

E há pessoas esperando pela primeira.

Talvez por isso eu tenha aprendido a desconfiar da palavra “só” quando falamos de tratamentos.

“Só existem duas opções.”

Duas?

Para algumas doenças raras, existem zero.

Para algumas pessoas, o primeiro tratamento que falha não é seguido da pergunta:

— Qual tentaremos agora?

É seguido de silêncio.

Há pacientes esperando pelo primeiro medicamento aprovado para sua condição. Famílias acompanhando estudos clínicos como quem acompanha, de longe, a construção de uma ponte para uma margem onde talvez não consigam chegar.

Pesquisadores tentando transformar uma possibilidade em tratamento antes que o tempo de alguém acabe.

Dois não é pouco quando ontem havia um.

E três podem ser a distância exata entre morrer e continuar aqui.

Por isso, quando uma doença que tinha uma opção passa a ter duas, eu não consigo enxergar apenas um número pequeno.

Eu vejo uma porta nova.

Vejo alguém ouvindo:

— Esse não funcionou. Vamos tentar outro.

Há frases que parecem banais até o dia em que nossa vida depende delas.

Eu tive a sorte de ouvir essa frase mais de uma vez.

Um.

Dois.

Três.

Na terceira tentativa, meu corpo finalmente respondeu.

E cá estou eu, anos depois, fazendo coisas absolutamente incompatíveis com a mulher que quase morreu (tá, eu morri. Mas voltei!): escrevendo livros, criando planos demais, reclamando da coluna, rindo alto, amando mais bicho do que gente, tomando café e tendo a audácia quase pecaminosa de achar que ainda tenho muita coisa para fazer por aqui.

Tudo porque, quando a primeira tentativa falhou, havia uma segunda.

E, quando a segunda falhou,

ela não era a última.

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💬 Comentários


Madan em 28/08/2026 08:21

🤍

Lucimar em 27/08/2026 02:44

Só quem passou por isso, intende a profundidade do que você estressou nessas palavras tão sábias. Deus abençoe você imensamente.

Eliza Câncio em 23/08/2026 16:54

1- 2- 3 Não era a sua hora. Acredito em propósito, em missão. Deus te trouxe de volta, porque você tem muito a realizar nesse mundo.

Leia em 23/08/2026 13:35

Apesar de não te conhecer pessoalmente te acho uma pessoa maravilhosa. Deus te dê muita saúde,que bom que tu venceu.