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27/08/2026 21:00 | Articulistas

A porta

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Esses dias eu comprei um fone.

Fone. Pelo menos era o que dizia a caixa.

Comprei pensando na Bienal, nos lugares cheios, nas muitas vozes falando ao mesmo tempo, nos sons que se sobrepõem até virarem uma coisa só — enorme, sem forma e impossível de ignorar.

No anúncio, uma promessa: “cancelamento de ruído”.

Achei que estava comprando tecnologia.

Descobri que estava comprando uma porta.

Outro dia, enquanto esperava meu filho na terapia ocupacional, coloquei o fone. A recepcionista, que já conhece o ritual, perguntou:

— Vai ligar seu modo autista?

Ri.

Nem conectei o fone ao celular.

Não queria música.

Não queria podcast.

Não queria ouvir nada melhor.

Eu só queria ouvir menos. Aquele “nada” delicioso…

Apertei o botão da redução de ruído e aconteceu aquilo que ainda me surpreende: o mundo se afastou alguns passos.

Não desapareceu.

Continuava tudo ali. Pessoas conversando, portas abrindo, passos, telefones, cadeiras, carros do lado de fora. A vida não havia abaixado o volume por minha causa.

Mas, de repente, eu não precisava receber tudo.

E meu corpo percebeu antes de mim.

Os ombros desceram.

A respiração ficou mais lenta.

Alguma coisa dentro de mim parou de vigiar. Meu eterno “modo alerta” finalmente percebeu que podia descansar.

Foi aí que entendi por que gosto tanto daquele silêncio.

Não é exatamente silêncio.

É segurança.

Passei muito tempo acreditando que suportar o mundo era uma espécie de competência. Que conseguir permanecer em ambientes barulhentos, acompanhar várias conversas, ignorar incômodos e continuar funcionando fazia parte da vida adulta.

Talvez faça.

Mas talvez a vida adulta também seja descobrir que nem tudo precisa ser suportado só porque conseguimos suportar.

Às vezes, posso simplesmente fechar a porta.

O curioso é que sempre associei portas fechadas a afastamento.

Quem fecha uma porta quer ficar sozinho.

Quem fecha uma porta não quer participar.

Quem fecha uma porta está indo embora.

Meu fone me ensinou outra possibilidade.

Posso continuar aqui.

Posso estar na sala de espera. Na Bienal. No carro. Em casa. No meio das pessoas que amo.

Só não preciso deixar que tudo entre em mim ao mesmo tempo.

Escolho o que entra.

Quando entra.

E em qual volume consigo receber.

Talvez seja isso que me acalme tanto quando aperto aquele botão.

Não é o desaparecimento do mundo.

É a descoberta de que existe uma fronteira entre o mundo e eu — e que, de vez em quando, sou eu quem pode cuidar dela.

Eu achava que tinha comprado um fone.

Mas comprei uma porta.

E descobri que posso fechar uma porta sem precisar ir embora.

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