Vejo muitas vezes no consultório pacientes que se espantam com o diagnostico de depressão. “Mas doutor, não me sinto triste, como posso ter depressão?” Me proponho hoje a fazer uma discussão muito importante acerca dessa dúvida tão comum. Depressão é tristeza? Tenho que chorar sempre? Ficar reclamando da vida todo o tempo?
Existe no nosso senso comum um perfil de pacientes depressivos. Muitas vezes aquela pessoa com a face cansada, triste, chorosa, que não sai da cama, que reclama da vida o tempo todo. Mas nem toda depressão começa ou se apresenta dessa forma.
Primeiro é importante salientar que a tristeza, por si só, não é uma condição clínica. Assim como exemplifiquei no texto sobre ansiedade, a tristeza é uma emoção inerente a condição de vida do ser humano. Estranho seria você perder o emprego, um relacionamento, um ente querido e não ficar triste. Já a depressão, essa sim é uma condição clínica.
Nosso manual de doenças mentais (DSM-V) traz uma lista de sintomas necessários para fazer o diagnóstico de um transtorno depressivo. Não irei listar elas aqui, mas vou fazer um apanhado geral de como identificamos um paciente depressivo.
A ideia é sempre avaliar o funcionamento e sofrimento do individuo, a duração dos sintomas, a intensidade e a frequência, contexto clínico e claro excluir causas orgânicas que possam estar contribuindo para esses sintomas. Se existe condições que atrapalham seu funcionamento ou pior que te causam sofrimento temos que ficar atentos.
Vamos dar um exemplo. Alguém que previamente frequentava o trabalho sem problemas, saía com sua família e amigos, se divertia sozinha, dormia bem, nota que há alguns meses começou a perder o interesse por tudo isso. Colocou toda a culpa no cansaço: “tenho trabalhado demais, só preciso de descanso”.
Seus sintomas foram progredindo, agora ela precisa de muito esforço para ir trabalhar. E pior precisa de muito esforço para se divertir!! “Como assim? Esforço pra fazer algo que gosto? Será que tenho gostado? Tenho me sentido bem?” São perguntas muito importantes. E é aqui que encontramos um dos sintomas centrais da depressão: a anedonia.
Anedonia nada mais é que perder o interesse por coisas que antes você tinha prazer. Ver um filme que gostava já não é tão divertido, sair para rir com os amigos já demanda um esforço imenso e a vontade de se isolar para “descansar” começa a ser recorrente.
Adjunto a isso inúmeros outros sintomas podem acontecer. Falta de energia, dificuldade em se concentrar (nem sempre é TDAH rs), irritabilidade, insônia ou hipersonia, alteração no apetite, dores físicas, perda de libido, sensação de vazio, culpa, pessimismo, dificuldade em tomar decisões. Enfim... Veja, é muito mais complexo do que: estou triste?
Portanto se você percebe que algo está fora do lugar, que você já não é mais o mesmo, que apareceram dificuldades no seu dia a dia que antes não existiam, procure ajuda. Busque pessoas de sua confiança, se abra com elas. Busque terapia!! Terapia salva vidas! Busque ajuda de um psiquiatra se necessário. Nunca deixe de buscar se observar, se entender e cuidar de você mesmo!
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