Não procure pistas.
Elas estarão espalhadas pela casa inteira.
Na caneca de café esquecida pela metade. Nos livros empilhados ao lado da cama. Na mensagem que comecei a escrever e apaguei porque, de repente, explicar pareceu mais cansativo do que permanecer incompreendida.
Se eu sumir, não terá sido falta de aviso.
Eu avisei todas as vezes em que disse que estava cansada e alguém respondeu que também estava.
Avisei quando disse que doía e ouvi que precisava me movimentar mais.
Quando disse que não conseguia e me explicaram, com admirável convicção, tudo o que eu conseguiria se tentasse.
Avisei quando pedi ajuda fazendo piada.
Talvez esse tenha sido meu erro.
Aprendi cedo demais a embrulhar desespero em papel de presente. Coloco um laço bonito, acrescento um palavrão, faço todo mundo rir e pronto: ninguém percebe que havia um pedido de socorro dentro da caixa.
Inclusive eu.
Fiquei muito boa em parecer bem.
Há certa competência perigosa nisso.
A gente penteia o cabelo, passa um batom, responde mensagens, pergunta se os filhos comeram, lembra a consulta de alguém, compra ração, paga boleto, escreve uma crônica e, entre uma tarefa e outra, vai desaparecendo com extraordinária eficiência.
Sem fumaça.
Sem clarão.
Sem deixar sequer o contorno do corpo desenhado no chão.
Porque desaparecer raramente acontece de uma vez.
Primeiro, a gente deixa de contar.
Depois, deixa de pedir.
Em seguida, deixa de esperar.
Até descobrir que o silêncio ocupa muito menos espaço do que a esperança.
E eu tenho pensado nisso.
Não em ir embora.
Mas em quantas versões de mim precisei abandonar pelo caminho para continuar aqui.
A mulher que fazia tudo sozinha.
A que achava que precisava provar que a dor era verdadeira.
A que dizia “deixa que eu faço” enquanto o corpo inteiro dizia “por favor, não”.
A que confundia resistência com obrigação de suportar.
Suportar até quando?
A que custo?
Algumas morreram.
Ainda bem.
Outras eu procuro até hoje.
Talvez permanecer também seja uma sucessão de desaparecimentos.
Lentos.
Progressivos.
A pele antiga precisa cair para que alguma coisa sobreviva embaixo dela.
Só que há um desaparecimento que me assusta mais do que todos os outros: aquele que acontece diante de pessoas que dizem nos amar e, mesmo assim, não percebem que já estamos ficando transparentes.
Quase um holograma.
Porque ninguém some no dia em que vai embora.
A gente começa a sumir muito antes.
Na conversa em que desistiu de terminar a frase.
No abraço que não pediu.
Na dor que decidiu não explicar pela centésima vez.
Na resposta automática:
“Estou bem.”
Às vezes, “estou bem” significa apenas:
não tenho forças para traduzir o que está acontecendo aqui dentro para alguém que talvez não queira aprender o idioma.
Eu, que já fracassei até em morrer, sou tão incompetente nisso que nem o corpo deixo.
Por isso, se um dia eu sumir, não procure uma carta em cima da mesa.
Procure todas as que escrevi enquanto ainda estava aqui.
Estão nas vezes em que pedi descanso.
Nas vezes em que disse não.
Nas vezes em que precisei que acreditassem em mim sem exigir provas.
Nas vezes em que ri alto demais de alguma coisa que doía.
Estão até nas minhas piadas.
Principalmente nelas.
Mas talvez exista uma boa notícia nisso tudo.
Eu cansei de desaparecer de mim.
Cansei de me diminuir para caber, de silenciar para não incomodar, de ultrapassar meus próprios limites para que ninguém precisasse lidar com eles.
Cansei de ser refém de mim.
Da culpa.
Da obrigação de agradar.
Da necessidade de justificar cada limite.
Da mulher que aprendeu a suportar tanto que, por algum tempo, confundiu sobrevivência com vida.
Desses lugares, eu pretendo sumir sem deixar endereço.
E que nunca mais eu volte.
Porque há desaparecimentos que não são perdas.
São resgates.
E, se alguém perguntar por mim, diga que finalmente fui encontrada.
Por mim mesma.
Porque eu já desapareci muitas vezes para conseguir permanecer.
Agora quero experimentar o contrário:
permanecer inteira, plena em um corpo incongruente.
E isso também não terá sido falta de aviso.
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