30/12/2025 20:27 | Colunistas
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por Aline Borges

O QUE NÃO DIZER A UMA PESSOA COM DOR CRÔNICA NO FINAL DO ANO (E o que dizer em vez disso)

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O final do ano é um território emocionalmente complexo. Para muitos, é sinônimo de reencontros, celebração e renovação de esperanças. Para quem convive com dor crônica, no entanto, essa época também pode carregar um peso invisível: o peso da expectativa alheia, dos comentários bem-intencionados que machucam, da sensação de estar fora do ritmo de um mundo que parece só celebrar.

Este texto não é um manual de censura, mas um guia de sensibilidade. Porque acredito que muitas pessoas falam sem maldade — falam por falta de repertório, por desconhecimento ou pelo mito perigoso de que datas festivas exigem otimismo forçado. Vamos, então, desarmar algumas frases que doem e oferecer alternativas que acolhem.


🚫 O QUE NÃO DIZER (E POR QUÊ)

❌ “Mas você tá tão bem!”

A dor crônica é, por definição, invisível. Aparência não é espelho do corpo interno. Essa frase invalida a experiência da pessoa, como se ela estivesse “inventando” o sofrimento. Além disso, muitos de nós nos esforçamos para parecer bem justamente para não sermos alvo de julgamento ou pena.

❌ “Tomara que ano que vem você esteja curado(a)!”

Apesar da boa intenção, essa frase coloca uma pressão desnecessária e pode soar ingênua. Muitas condições são crônicas — ou seja, fazem parte da vida. O objetivo, muitas vezes, não é a cura, mas a convivência digna, o manejo dos sintomas, a qualidade de vida dentro do possível.

❌ “Precisa se animar, é Natal / Ano Novo!”

Dor não é tristeza. E tristeza não é falta de fé. Essa frase transforma a experiência legítima da pessoa em um “problema de atitude”. É como culpar alguém por não sorrir durante uma crise de enxaqueca ou dor na coluna.

❌ “Eu também ando cansado(a), é o fim do ano...”

Cansaço comum e fadiga crônica não estão na mesma escala. Compará-los diminui a experiência de quem lida com um esgotamento que não melhora com uma noite de sono e que é sintoma, não consequência.

❌ “Já tentou [chá, dieta, meditação, tratamento milagroso]?”

Desmerece toda a jornada da pessoa — suas idas a médicos, fisioterapeutas, psicólogos, a busca por informações confiáveis. Pressupõe que ela não cuida de si ou que sua condição é simples de resolver.

❌ “Deixa de frescura e vem pra festa!”

Essa é das mais violentas. Ignora por completo o processo de decisão que a pessoa pode estar enfrentando: escolher entre socializar e conseguir levantar no dia seguinte, entre participar e gerenciar a dor. Nega sua autonomia e seu autoconhecimento.


💡 O QUE DIZER (OU FAZER) EM VEZ DISSO

✅ “É bom te ver. Como você tem passado?”

Pergunta aberta, sem pressupostos. Permite que a pessoa decida o que e quanto quer compartilhar.

✅ “Se precisar de algum ajuste pra ficar confortável, me avisa.”

Oferece acolhimento prático e demonstra que você se importa com o bem-estar dela, não só com sua presença.

✅ “Se for cansativo ficar até tarde, saiba que vai fazer falta, mas tudo bem ir na sua hora.”

Valida a importância da pessoa e, ao mesmo tempo, libera sua saída sem culpa. É um gesto de amor com respeito aos limites.

✅ “Admiro sua força, mesmo nos dias difíceis.”

Reconhece a batalha invisível sem romantizá-la. Diferente de “você é tão forte!”, que pode soar como uma expectativa de resistência infinita, essa frase acolhe também a vulnerabilidade.

✅ “Quer sentar num lugar mais quieto?” ou “Posso te trazer um copo d’água?”

Às vezes, o cuidado está nos gestos, não nas palavras. Observar e agir com discrição pode valer mais do que qualquer frase.

✅ Dica de ouro: Ouça mais. Presuma menos.

Muitas vezes, o silêncio companheiro é mais terapêutico que qualquer conselho. Deixe que a pessoa lidere a conversa sobre sua condição, se quiser.


❤️‍🩹 POR QUE ISSO IMPORTA NO FIM DE ANO?

Para quem vive com dor crônica, datas comemorativas podem amplificar sentimentos de solidão e incompreensão.
Enquanto o mundo parece correr em ritmo de celebração, o corpo pede pausa.
Pequenos ajustes na comunicação — tanto de quem fala quanto de quem ouve — podem transformar uma reunião familiar em um momento de verdadeiro acolhimento, e não de tensão disfarçada.

O espírito do findar do ano, do renovar das esperanças, também pode ser o espírito da escuta atenta, da presença sem pressão, do respeito ao tempo do outro, da compreensão sem cobrança.


📦 PARA GUARDAR E COMPARTILHAR

PARA QUEM CONVIVE COM DOR CRÔNICA:
Você não é obrigado(a) a educar ninguém.
Se alguém disser algo que machuca, você tem o direito de respirar fundo, de mudar de assunto ou de simplesmente sair de cena.
Sua prioridade é o seu bem-estar.
Você já luta uma batalha diária — não precisa travar também a batalha da invisibilidade.

PARA QUEM QUER APOIAR DE VERDADE:
Pergunte com interesse genuíno.
Ouça sem interromper.
Acolha sem julgar.
Ofereça ajuda concreta.
E lembre-se: às vezes, o maior presente que você pode dar é o silêncio que acolhe.

Que este final de ano nos encontre não só à mesma mesa, mas no mesmo patamar de humanidade — onde a dor não é tabu, o cansaço não é fracasso, e o afeto se mede pela capacidade de ver, ouvir e respeitar o outro em sua verdade inteira, mesmo quando essa verdade inclui limites.
Porque celebrar a vida também é celebrar a verdade de cada um que está na roda.

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