15/01/2026 11:46 | Colunistas
Avatar de Aline Borges
por Aline Borges

Malas Abertas: O que Levo para Viajar com Dor

Imagem da notícia

São 00:34h de uma quarta-feira abafada. Na minha frente, duas malas.

Uma é a comum: vestido para a festa, sapato que promete conforto por horas (uma mentira que conto aos meus pés), presente embrulhado.

A outra é invisível para quase todos. É a outra mala. A que carrego dentro do corpo. Nela, vou arrumando, com cuidado detalhista de ourives:

· Camadas de fadiga pré-viagem, dobradas com precisão.
· O cálculo milimétrico: "Quantos comprimidos cabem entre aqui e o destino?"
· O medo líquido de uma crise no carro, disfarçado de organizador de remédios.
· O travesseiro de pescoço, que é meu salva-vidas, meu objeto mais pessoal.
· O cobertor de ansiedade (morfina) que, espero, não precise usar porque não quero ir pra Nárnia.

Agora inicio 8 horas de estrada. Destino: as Bodas de Prata de quem amo. Motivo: celebrar a vida que dura, que resiste, que ama.

Há uma pergunta não dita que sempre me acompanha nesses planos: "Vale a pena?" O cansaço antecipatório, a dor garantida no pós-festa, o esforço que para outros é simples, mas para mim é uma estratégia de guerra que nem sempre eu venço.

E a resposta, sempre, ecoa mais alta: SIM. Vale a pena me esforçar, direcionar minha energia aos que amo e sei que há reciprocidade.

Porque eu me recuso a velar meu próprio corpo enquanto estou viva. A dor crônica é uma hóspede importuna e permanente, sim. Mas ela não é a dona da casa. Ela não as regras.

A viagem será um perrengue? Provavelmente. Vou ter que explicar mil vezes "estou bem" quando não estou? Sim. Vou precisar sumir por 15 minutos para deitar no chão de um quarto escuro e resetar o sistema pra me regular? Certeza.

Mas também vou ter o abraço dos meus compadres queridos. O brilho nos olhos deles. O amor e o bolo compartilhado. A música que vai doer no osso, mas alegrar a alma. A sensação de pertencer a um momento, de estar inteira dentro da minha própria história, mesmo que essa inteireza venha com um manual de instruções complexo e uma dose generosa de dor.

A dor é, muitas vezes, o preço que se paga por estar presente. É a taxa de inscrição para a vida quando se tem um corpo que protesta. E quem disse que sairíamos ilesos da existência? A graça não está na ilesão. Está na cicatriz que prova que estivemos lá. Que rimos, que dançamos, que viajamos, que amamos, que VIVEMOS— apesar de.

Então vou. Com minhas duas malas: a de roupas e a de carne. Levo minha dor como se leva uma companheira difícil, mas antiga. E levo, principalmente, uma fome voraz de viver.

Porque no fim das contas, a única condição crônica que realmente me assusta é a de não ter vivido o suficiente, de não sentir o ar dar vida aos meus pulmões.

Então, boa viagem pra mim. E pra todos nós que arrumamos a mala invisível de um corpo que dói 24/7 com coragem, e seguimos em frente, rumo à vida que pertencemos.

← Voltar

💬 Comentários


Michella em 17/01/2026 14:00

Acho incrível como vc tem tanta facilidade em colocar seus sentimentos em palavras simples, mas de forte impacto …. Vc é demais amiga

Jane em 17/01/2026 07:47

Muito lindo o texto.
Se Deus quiser vai sair dessas dores ,rezo diariamente por vc,pela sua saude,vc e vitoriosa.

Guilherme em 16/01/2026 20:01

Ler isso me fez pensar sobre como cada um de nós carrega suas ‘malas invisíveis’.
Obrigado pelo texto!