22/01/2026 02:32 | Colunistas
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por Aline Borges

O Direito de Entrar

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Há dores que os remédios não tocam.
Dores que ficam latejando nas fraturas da rotina, nas ausências que a mudança deixou para trás, no silêncio de algo importante que sumiu — e com ele, dezenas de mundos acessíveis com um toque.
Meu JoaKindle se perdeu na mudança.
E eu, que já estava perdendo o sono pela dor no corpo, perdi também o sono da alma: aquele que a gente dribla mergulhando em páginas iluminadas, em letras que brilham no escuro.

Mas pior que perdê-lo foi perder o direito de buscar refúgio.
Há poucos dias, diante da porta de uma livraria — daquelas que cheiram a papel novo, promessa e quietude —, fui bruscamente interrompida.
Um gesto, uma palavra, um bloqueio.
Não entre.
Não toque.
Não vá.
Não respire esse ar que não é seu.
Imperativo, feito corte seco de espada.

Não me bateram.
Não xingaram.
Apenas me negaram o acesso.
Com palavras.
Chamo isso de “bullying literário”: a violência suave de quem acha que pode decidir quando, como e se você merece atravessar a porta de um lugar feito daquilo que você é feito: palavras.

Livraria é templo para pessoas como eu, como você que me lê.
É onde a dor crônica se ajoelha e encontra alívio sem precisar de receita.
É onde a solidão vira companhia de personagens que não exigem explicações.
É onde o cansaço físico cede lugar ao fôlego da narrativa.
Barrar alguém na porta de uma livraria não é sobre proteger estoque — é sobre cercear oxigênio.

Fiquei do lado de fora.
Olhei para o outro lado e percebi que apenas cinco passos me separavam de um universo inteiro.
Senti como se meus próprios livros — os que estão em casa, os que desapareceram no meu amado JoaKindle, os que ainda nem escrevi — chorassem uma espécie de luto antecipado.
Porque livro também sente falta de quem o lê.
Palavra também espera pelo olhar que a acolhe.

Enquanto isso, a dor no corpo seguia firme, implacável — covarde.
E eu pensei: quantas portas nos são fechadas sutilmente?
Quantas vezes nos tornamos reféns de decisões alheias sobre o que é “adequado” para nosso consumo, nosso lazer, nosso alívio?
Quantas vezes nos fazem acreditar que não merecemos o cheiro de livro novo, o peso de um volume nas mãos, o direito de escolher nossa própria fuga?

Naquele dia, não entrei na livraria.
Doeu.
Mal sabe a vida que carrego comigo uma biblioteca interna à prova de bloqueios.
E uma convicção:
não há gesto, não há palavra, não há porta fechada na cara que consiga apagar a sede de quem aprendeu a beber diretamente da fonte das histórias.

Fica a dica, pra quem acha que controla o acesso dos outros à beleza:
podem me barrar na porta.
Mas a palavra — essa, ninguém me tira.
Ela já enraizou no meu sangue, brotou na minha crônica, e resiste, mesmo quando o corpo dói e os livros ficam do lado de fora.

A dor passa.
O bloqueio, também.
A literatura, não.
Ela fica.
Escape sempre por onde der.
Até por uma fresta.
Porque fresta no meio da escuridão vira lampião.


Com amor,
Aline.

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💬 Comentários


Cíntia Acruche em 23/01/2026 00:56

Alineee, maravilhosa!
Quanta sensibilidade!
Quanta lucidez!!
Amei, amei!!🥰

Jane Heloisa em 22/01/2026 13:12

Tudo maravilhoso

Isabelle em 22/01/2026 12:33

Sensacional!!

Giselle em 22/01/2026 12:17

Maravilhosa

SImone Sá em 22/01/2026 12:15

"Mal sabe a vida que carrego comigo uma biblioteca interna à prova de bloqueios."

Essa frase reflete também minha história com Sindrome de Ehlers-Danlos Hipermóvel e diversascomorbidades.

Parabéns a autora, que nos retrata tão bem em suas palavras nascidas num misto de dor e amor.