“Você está toda torta”, disse o osteopata.
Meus ombros, minha cervical, minhas articulações gritavam enquanto ele decifrava um mapa de resistência. Um ombro mais alto, de tanto carregar a cruz a mim designada. A pélvis rodada, de tantos giros no mesmo lugar. A cabeça inclinada, como se escutasse, sempre, um segredo pesado.
Estendida na maca, senti meu corpo confessar cansaços que minha boca insiste em negar. E pensei: como ajustar a estrutura se a vida faz questão de desalinhá-la? Foi aí que surgiu a pergunta — meio séria, meio piada íntima:
Como pode uma colunista escrever reto com uma coluna torta?
(Quem escreve reto por linhas tortas é Jesus. E não eu.)
A resposta veio antes do próximo ajuste, antes de eu sair dali um pouco mais alinhada e muito mais pensante:
Escrevo reto exatamente porque a coluna é torta.
O corpo é o nosso primeiro rascunho. Cheio de vícios posturais, tensões adquiridas e mal distribuídas, histórias gravadas na fáscia e tatuadas nos músculos. O osteopata atua como um revisor físico: busca a origem do desvio, restaura o fluxo, alivia pressões indevidas. E ali entendi que minha escrita é a minha sessão diária de ajuste.
Cada palavra escolhida com cuidado realinha o caos interno.
Cada parágrafo organizado reposiciona uma vértebra invisível.
Cada texto finalizado devolve fluxo — às ideias, às emoções, ao sentido.
O osteopata usa o conhecimento e as mãos para ouvir o que o corpo cala.
Eu uso as palavras para ouvir o que a alma sussurra. Às vezes, ela grita.
Ele trabalha com pressão precisa e liberação.
Eu, com verdade precisa e catarse.
Há técnica nos dois ofícios. Ele alonga, torce, ajusta. Eu ativo memórias, mobilizo emoções travadas, liberto frases presas.
Às vezes dói.
O ajuste ósseo dói.
A escrita honesta também — expõe nervos, revela fraturas, desloca o que estava confortável demais. E talvez essa nem seja a pior parte: o conforto tem essa mania perigosa de nos paralisar. A vida, não. A vida pede movimento.
Depois vem o alívio.
A respiração que desce mais fundo e expande as costelas.
A ideia que encontra passagem.
O peso que, de repente, pesa menos — porque perde importância.
Escrever é minha osteopatia da alma. Ajusto na página o que não consigo consertar no corpo. Endireito nas linhas a curvatura da existência que me habita.
Por isso, quando perguntam como lido com a dor crônica, com os dias em que o corpo parece um quebra-cabeça desmontado e com peças faltando, respondo: escrevo. Escrevo como quem aplica um autotratamento. Como quem busca o próprio eixo entre parágrafos, vírgulas e pontos finais.
Não trocaria minha coluna torta por uma postura perfeita. É dessa curvatura exata que nasce meu ponto de vista. É do desalinhamento que brota a urgência de alinhar pensamentos.
Sigo assim:
torta no corpo,
reta na palavra.
Convencida de que a mais bela osteopatia é aquela que praticamos na própria história — manipulando memórias, liberando afetos, realinhando a narrativa de quem somos, um texto por vez, cada um no seu tempo.
No fim, somos todos livros de carne e osso, com um marca-páginas amassado, esperando um toque hábil para que a história volte a fluir.
A minha, eu ajusto com palavras.
Magistral abordagem! Parabéns!
Lindo texto!!! Simplesmente perfeito!!
Lindo demais! Vc sabe exatamente “a dor é a delícia de ser o que é!” Parabéns, minha amiga! Vc é luz! Te amo! 😘❤️
Amei o texto!