Há um silêncio que pesa.
Não é o silêncio do quarto escuro; é o silêncio do corpo que desligou.
A dormência nas pernas não é alívio — é uma ausência com massa, com volume.
Da altura dos joelhos para baixo, eu desapareci, mas deixei para trás o molde de mim mesma, feito de chumbo.
Aprendi, com o tempo, a ouvir a dormência.
Ela não é vazia.
Tem textura de algodão úmido, temperatura de madrugada sem lua, um ruído de estática espessa.
O Guillain-Barré me deixou isso: a capacidade de escutar o que o corpo não diz.
Enquanto a dor aguda grita, a dormência sussurra:
“Aqui, algo se foi.
Aqui, o mapa das sensações tem um continente em branco.”
E enquanto as pernas se mantêm como colunas de gelo imóvel, outra parte do corpo arde em fogo.
É a orquestra desafinada do crônico:
uma seção protesta em volume máximo,
a outra entra em greve de silêncio absoluto.
Uma exige atenção.
A outra foge do toque.
E eu, no meio, tento reger esse caos com a única batuta que me restou: a atenção.
Então escrevo.
Escrevo como quem tenta traduzir o silêncio.
Como quem busca uma língua para o vácuo.
Se o nervo já não conduz o toque, eu conduzo a caneta.
Se o pé não sente o chão, planto palavras onde deveria haver sensação.
A página vira meu eletroencefalograma literário:
cada linha, uma tentativa de mapear territórios perdidos do corpo.
Aprendi que a dormência não precisa ser um deserto.
Pode ser um campo em pouso.
Onde o corpo descansa da dor, a imaginação cria raízes.
O silêncio pesa, sim.
Mas hoje, em vez de carregá-lo como maldição, carrego-o como matéria-prima.
Porque dessa quietude forçada nasceu uma escuta refinada.
Desse corpo que às vezes silencia, nasce uma voz que não se cala.
A dormência tem o peso do silêncio.
A palavra tem a leveza de uma asa.
E eu, entre uma e outra, sigo escrevendo,
transformando chumbo em verso,
ausência em presença.
O silêncio pesa.
O chumbo mantém meus pés no chão.
E, ao traduzir a dor em palavras,
percebo:
a vida não foi em vão.
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