Ontem, o céu se incendiou em laranja e rosa.
Estava com Zidane na rua, a coleira frouxa, o passo lento — o meu, não o dele. Ele sempre tem pressa, eu aprendi a não ter. E naquele momento, diante do poente que parecia pintado à mão por quem entende de eternidade, fiz o que antes parecia impensável:
Não tirei foto.
Bem, tirei. Uma. Linda, enquadrada, filtro nenhum porque o filtro já estava no céu. Abri o Instagram, escrevi legenda, coloquei hashtag. E então, com o dedo pairando sobre o botão, parei.
Respirei fundo. Olhei para Zidane, que me olhava como quem pergunta “já vamos?”. Olhei para o céu, que começava a escurecer. E pensei: para quem exatamente eu quero provar que vi isso?
Guardei o celular no bolso.
O pôr do sol não precisa de testemunha. Ele simplesmente acontece — como a minha gratidão, que não coube em legenda. Como as coisas que pedi em oração durante tanto tempo e que, hoje, estão todas aqui: o cachorro que me puxa, a rua quieta, o corpo que dói mas ainda anda, o ar que agora entra e sai.
Houve um tempo em que eu via o pôr do sol por uma fresta mínima da cortina da UTI.
Eu não podia caminhar. Não podia escolher.
Respirava com ajuda de uma máquina — e meus olhos respiravam o céu alaranjado naquela pequena abertura.
A janela era lacrada. O ar não circulava. Meus pulmões também não se mexiam.
Mas aquela faixa de luz rasgando a cortina era um lembrete silencioso: ainda havia céu.
E, enquanto houvesse céu, havia vida.
Ali, aprendi algo que ninguém precisa postar para entender: estar viva já era mais do que suficiente.
Pedi. Recebi. Agradeci.
E ninguém precisou saber.
Há uma forma de exposição que se veste de simplicidade. A foto do prato, a selfie que se diz espontânea com texto sobre autoaceitação.
O discurso que anuncia desapego. O check-in na viagem “fora da rota” com discurso de anticonsumo.
Não julgo — já fiz tudo isso.
Mas ontem entendi algo que meu corpo cansado já sabia desde 2021:
A simplicidade genuína não precisa de moldura.
Ela não pede like. Não aguarda comentário. Não calcula o melhor horário para postar. Ela simplesmente é — e isso basta. É o luxo de quem quase perdeu tudo e descobriu que existir já é extraordinário. De quem não precisa traduzir a própria paz para os outros.
Simplicidade não é estética. É silêncio.
É o celular no bolso enquanto o céu se despede. É o cachorro que não sabe que é poesia. É o corpo que dói mas insiste em caminhar. É a respiração que hoje não depende de máquina alguma. É a vida que a gente não precisa documentar para saber que valeu a pena.
Ontem, não postei.
Escolhi viver.
Sem plateia.
Sem palco.
Sem aplausos.
Apenas vivendo o momento que, um dia, quase não pude viver.
O céu laranja durou minutos.
A consciência de estar aqui — inteira, imperfeita, caminhando — essa dura até agora.
Estar viva não é conteúdo.
É milagre.
Aline, que lindas e sábias palavras.....carregadas de muita clareza, e na essência de tudo o que vc já passou na vida. Deus te abençoe grandemente!!!! Bjs querida.
Maravilhoso minha amiga!! Parabéns… por tudo!!
Que tapa logo pela manhã. Obrigada por me acordar para o que realmente importa.
Crônica super necessária.
Parabéns!! Crônica linda!! Verdadeira, sai do fundo da alma. 😘😍
Lindo cada dia mais inspirada .Que Deus continue inspirando cada vez mais e mais .Fica com Deus.