Fevereiro é o mês mais curto do ano. E é justamente nele que se fala sobre doenças raras. Não é coincidência: fevereiro é o único mês que tem 28 dias — ou 29, nos anos bissextos. Ele também é, de certa forma, raro.
Um mês incomum para lembrar uma realidade incomum.
Mas vamos ao que importa.
O que é uma doença rara?
Segundo a Organização Mundial da Saúde, é aquela que afeta até 65 pessoas em cada 100 mil indivíduos. Pode parecer pouco. Mas quando somamos todas, o cenário muda: existem mais de 7 mil doenças raras catalogadas no mundo.
No Brasil, as estimativas apontam que cerca de 13 milhões de pessoas convivem com alguma delas.
13 milhões de brasileiros.
13 milhões de histórias.
13 milhões de corpos que, em algum momento, ouviram: “isso é raro”.
O que quase ninguém vê
Uma das primeiras coisas que uma doença rara tira da gente é o tempo. Tempo até o diagnóstico. Tempo até encontrar um tratamento adequado. Tempo até ser ouvido.
No Brasil, esse caminho pode levar de 5 a 10 anos para que o diagnóstico correto chegue. Nesse percurso, muitas pessoas escutam explicações simplistas: “é ansiedade”, “é coisa da sua cabeça”, “é exagero”.
Não é.
Também é importante reconhecer que muitos profissionais de saúde enfrentam limitações estruturais quando o assunto são doenças raras. Falta investimento, falta pesquisa, falta formação específica. E quem sente o impacto direto dessa lacuna é o paciente.
A segunda coisa que a doença rara ameaça tirar é a validação. Se não aparece em exames comuns, se não tem nome conhecido, parece que não existe.
Mas existe.
Existe na dor.
Existe no cansaço.
Existe nas limitações invisíveis.
E viver tentando provar que o que você sente é real cansa mais do que a própria dor.
A invisibilidade pesa
Eu convivo com duas doenças raras: Síndrome de Guillain-Barré e Síndrome de Ehlers-Danlos hipermóvel.
A primeira quase me levou em 2021. Fiquei tetraplégica, entubada, 31 dias na UTI, e enfrentei uma parada cardíaca que me fez atravessar uma experiência de quase morte.
A segunda é uma companheira permanente. Afeta articulações, pele, dor crônica e traz uma fadiga difícil de explicar para quem nunca sentiu.
E mesmo assim, existem dias em que escuto: “mas você parece tão bem”.
Essa frase, por mais bem-intencionada que seja, pode doer. Porque muitas vezes aprendemos a esconder a dor para não incomodar. Sorrimos enquanto o corpo pede pausa. Seguimos até onde dá — e às vezes além.
Quando o raro vem acompanhado
Doenças raras, com frequência, não caminham sozinhas. Elas podem trazer comorbidades: dores crônicas, fadiga extrema, alterações cardíacas, renais, neurológicas e emocionais.
No meu caso, os rins já resolveram produzir cálculos renais em série — expeli sete de uma vez. Cada episódio é um lembrete de que o corpo humano é uma engrenagem complexa, delicada e, às vezes, imprevisível.
Mas nem tudo é dissabor.
No meio do caos, surgem afetos que sustentam. O amor de quem fica. De quem acompanha consulta. De quem prepara um café forte e entende que o silêncio também é cuidado.
O amor dos filhos.
E até o amor de um buldogue francês de 7 anos, que enfrenta um câncer no coração enquanto continua sendo meu suporte emocional diário. Cuidamos um do outro. É assim que a vida segue.
Os desafios invisíveis
Também existem os obstáculos práticos: consultas desmarcadas, negativas de planos de saúde, medicamentos de alto custo, olhares de desconfiança e a sensação constante de estar pedindo licença para existir.
Por isso, falar sobre doenças raras não é apenas falar de superação individual. É falar de acesso, de políticas públicas, de pesquisa científica e de investimento em diagnóstico precoce.
É uma pauta de saúde coletiva.
O que eu quero que você leve deste texto
Se você convive com uma doença rara: você não está sozinha. Sua dor é real. Seu cansaço é real. Sua experiência é legítima. Você não precisa se justificar o tempo todo.
Descanse quando precisar. Celebre quando puder. Busque comunidade.
Se você não convive com uma, mas conhece alguém que sim: acolha sem minimizar. Pergunte como a pessoa está — e aceite que “bem” pode ser apenas o suficiente para aquele dia. Ofereça presença, não solução.
Invisível não é inexistente.
Fevereiro é curto. A luta, não.
O mês das doenças raras termina no último dia de fevereiro — 28 ou 29. Mas a realidade continua em março, abril, julho e dezembro.
Seguimos aqui. Com dores e afetos. Com desafios e pequenas vitórias. Com fé — porque ela é meu porto em meio à tormenta. Com humor possível. Com macarrão com cheddar. Com café. E com teimosia suficiente para continuar vivendo.
Ser raro não é ser menos.
É existir fora da estatística comum — e ainda assim merecer cuidado, respeito e dignidade.
Gradicida por chegar até aqui.
E lembre-se: se a vida é um Lego e eu ando descalça, agora você entende por que eu caminho devagar.
Tenho rara e não raras… Diagnostos tardios, teimosia para viver sem “encher o saco” do próximo. Beijos😘
Existe uma esperança de cura pra doenças auto imune com a premiação do Nobel de 2025. Nós somos soldadas de Deus e vamos vencer mais esta batalha porque quem tem um Deus misericordioso nada neste mundo pode nos atingir. Vc é uma mulher de muita fé e todo esse tempo tem sido um exemplo de superação e resiliência nas batalhas vividas e seus textos e reflexões só nos deu força pra que jamais desistamos de acreditar em dias melhores. Deus está no controle minha linda e logo seremos mulheres vencidas pelo amor de Deus 🙏😘💖
Amando acompanhar seus textos e reflexões. Trazem muita informação importante
Políticas públicas, médicos que honrem a profissão, em detrimento do que os planos de saúde o induzem a fazer. Diagnóstico mais rápido e preciso.
Vc sempre trazendo reflexões importantes!!!! bjo no ❤️
A cada dia aprendemos um pouco com voce!
Sei das suas dores,sua luta e espero que elas sejam menores, e que maior seja sua vitória!!
Lindo demais! Como aprendo com vc, minha amiga! 😘❤️❤️❤️
Texto perfeito e que explica com detalhes como é ser raro e ter que viver como se fosse só mais um "comum" Obrigada por me retratar em seu texto. Amutu
Texto perfeito e que explica com detalhes como é ser raro e ter que viver como se fosse só mais um "comum" Obrigada por me retratar em seu texto. Amutu