Carregando cotações e clima...
25/02/2026 20:38 | Colunistas
Avatar de Aline Borges
por Aline Borges

Não valemos nada

Imagem da notícia

Enquanto aguardo meu filho na sala de espera da terapia ocupacional, escrevo.
Ele desenvolve habilidades lá dentro; eu desenvolvo palavras aqui fora.

Fone nos ouvidos, tentativa de concentração. A música ambiente atravessa a porta como quem não pede licença — sempre no volume errado, no momento errado. Mas a escrita chama mais alto. E eu venho.

Ontem, de madrugada, enquanto a cidade dormia, abri o baú das memórias. Conversava com uma amiga rara, recém-saída da primeira sessão de imunoterapia, ainda lidando com os efeitos colaterais. E então veio, inteira, uma cena da minha internação.

Entubada. Tomando imunoglobulina. Não lembro quantos frascos. Lembro do depois.
Lembro do corpo falhando sem pedir autorização. Lembro da diarreia que subia pela fralda e chegava na nuca. Sim, na nuca — ao menos o cabelo estava preso numa trança. A equipe de enfermagem me dava dois, três banhos até conseguir limpar tudo. Eu era virada de um lado para o outro como um boneco de pano, pedindo desculpas apenas com o olhar.

A vergonha doía tanto quanto o corpo.
A impotência atravessava mais fundo que qualquer agulha.

Não havia nada a fazer além de rezar. E eu rezava.

Na minha cabeça, que abrigava pensamentos acelerados e catastróficos, surgiam perguntas simples: “e agora?”. O medo corria numa velocidade absurda. Eu me via perdendo o controle — como um carro que ameaça sair da pista quando a mão treme no volante.

Então vinha meu anjo.

Maurício não chegava com macas ou medicamentos. Chegava com a mão. Apertava a minha com firmeza e dizia:
— donAline, vamos rezar? A senhora está muito nervosa. Vem, repete comigo: Pai nosso que estais no céu…

E eu repetia. Na cabeça, porque falar ainda não era possível. Palavra por palavra. Fôlego por fôlego. Emoção por emoção. Depois Ave Maria. Santo Anjo. Às três da tarde, pontualmente, o Terço da Misericórdia. Como se o céu tivesse horário marcado naquela UTI.

E eu sentia.

Foi ali, naquele círculo quase infinito de dor, que entendi algo desconcertante: tudo aquilo que usamos para medir valor não serve para nada.

Na UTI, não valemos nada do jeito que o mundo ensina.
Não produzimos.
Não performamos.
Não impressionamos.

O corpo cheira mal, falha, vaza, rasga a própria pele. A mente fraqueja, os planos viram pó. O currículo não entra na UTI. A vaidade não entra. A autonomia não entra.

Fica apenas o essencial.

Ficam as mãos que seguram.
Ficam as orações que sustentam.
Fica o amor que insiste.

É na nossa versão mais crua — aquela que ninguém posta, ninguém aplaude, ninguém romantiza — que descobrimos onde está o verdadeiro valor. Não no que fazemos. Mas no que somos quando já não conseguimos fazer nada.

Eu não desisti porque Ele não quis.
Porque quando o Pai pede calma, a filha aprende a obedecer.

“Calma, minha filha. Tenha calma.”

Eis-me aqui.
Calma.

Na mesma entrega de ontem, na mesma de hoje, esperando a terapia acabar para levar meu filho para casa. A vida continua. A escrita também.

Talvez a pergunta não seja quanto você vale quando está forte.
Mas o que permanece quando tudo aquilo que você chama de valor desaparece.

← Voltar

💬 Comentários


Eliza Cancio em 27/02/2026 11:18

Excelente reflexão. Aguardando meu neuro e lendo você, passou um filme na minha cabeça. Exatamente assim me sentia...Não valemos nada!Somos um pedaço de carne que cheira mal,que vaza,que agoniza. Me sentia exatamente assim. Minha conexão era com o sagrado! A imunoglobulina é terrível. Minha filha decidiu só eu ficarei com a minha mãe nas aplicações. Ela fica debilitada demais. Segundo ela minha feição se transformava.
Passamos...Passou! Sabemos da transcendência! Fato!

Leila Márcia Viana Chagas Santos em 25/02/2026 23:32

A forma como vc está enfrentando essa jornada com doenças raras e autoimunes é um testemunho da sua força e resiliência incríveis. Vc está inspirando outras pessoas com sua coragem e determinação.
Ler seus textos é uma experiência incrível para quem precisa de esperança. Vc é luz no caminho de muitas pessoas e sua mensagem de superação é um presente valioso e qdo penso em fraquejar lembro sempre que eu sou só mais uma perante a tantas outras que vem superando com fé e resiliência e por isso admiro sua força e mesmo nos momentos mais difíceis, a gente pode encontrar a beleza e a força para continuar. 🙏😊